Pessoas que sabem o que é bom

Existe uma classe de seres humanos pela qual nutro especial admiração: as pessoas que sabem o que é bom. Toda a gente tem um amigo (ou vários, no caso dos mais azarados) que sabe como é que as coisas são boas e, embora aprecie uma determinada coisa, dá sempre  um ou dois conselhos para melhoria da mesma. Vou dar alguns exemplos.

(Kay Gaensler/Flickr)

Um jantar de arroz “Pica no Chão”
Toda a gente está a apreciar a comida e muitos até repetem. O amigo que sabe o que é bom diz: “Isto está bom, não vou dizer que não, mas o arroz ‘Pica no Chão’ é bom um bocadinho de nada mais soltinho, com duas gotas de limão”. De súbito, o arroz passa a ser mais fraquinho. O amigo que sabe o que é bom estragou o jantar a toda a gente. O arroz passa a parecer cocó.

Uma noite numa esplanada
Toda a gente concorda que o tempo está agradável. O amigo que sabe o que é bom diz: “Está-se bem aqui, mas isto era mesmo bom só com um bocadinho mais de vento, não era preciso muito, só um bocadinho”. De repente, toda a gente fica com calor. Uma das pessoas é imediatamente picada por um mosquito. A noite na esplanada torna-se uma sauna ao ar livre.

Um gajo compra uma nova televisão e convida os amigos para jogar FIFA
Toda a gente está maravilhada com a possibilidade de jogar FIFA num ecrã daquele tamanho. Dá para ver os pormenores todos do jogo e tirar partido da capacidade da Playstation 4. O amigo que sabe o que é bom diz: “Isto está bom, mas para ser mesmo bom, a televisão tinha que estar um bocadinho mais afastada do sofá, só um bocadinho. E acho que a televisão precisa de um ajuste de cor. Quase nada, mas precisa”. De repente, um dos jogadores de FIFA sofre um golo estúpido. É gozado e passa-se da cabeça. Começa tudo a discutir. Uma noite de FIFA passa a ser uma sessão de trabalho forçado.

Um grupo de amigos visita o Louvre
Toda a gente está satisfeita com a visita. Uns gostam mais de uns quadros, outros gostam mais de outros. O amigo que sabe o que é bom diz: “Não digo que os quadros não sejam bons, mas estão mal iluminados. Precisavam de um bocadinho mais de luz, quase nada, mas precisavam”. De repente, os quadros parecem os desenhos que fazíamos nos cadernos dos amigos, no tempo da escola.

Um gajo tem um caso com a Charlize Theron

Todos os amigos o felicitam pela proeza. O amigo que sabe o que é bom diz: “Ela é gira, não digo que não, mas podia ter um bocado mais de mamas. Só um bocadinho”. De repente, a Charlize parece feia. Parece um “Pica no Chão” sem limão. Parece cocó.

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