O telemóvel que sabia tudo

Quando recebeu o telemóvel, o “Roleta” ficou desconfiado.

(O “Roleta” tinha esse nome devido a uma frase sua que ficara famosa, na aldeia de Bordalheira de Cima: “A vida é como a roleta, às vezes sai vermelho, às vezes sai o 17”.)

(Håkan Dahlström/Flickr)

- As chamadas são caras? – Perguntou.

- Não vais telefonar, “Roleta”, isto é só um teste – Respondeu o Manel.

- Um teste? É difícil?

- Não. Só tens que fazer o que o telemóvel te diz.

- Foda-se! Já não chega a minha mulher pra me dar cabo da cabeça?

O Manel especialista em tecnologia, Aikido e charcutaria, criara um telemóvel que, através de um sistema de inteligência artificial, iria ajudar as pessoas em vários capítulos da sua vida. O aparelho interagia permanentemente com o utilizador.

Assim que ligou o telemóvel, o “Roleta” passou a ser uma cobaia. Entrou o primeiro cliente na tasca e, em vez de o “Roleta” lhe perguntar “O que era?”, olhou para o ecrã do telemóvel e disse “Boa tarde, em que posso ajudar?”.

Toda a gente ficou impressionada. Quase toda a gente: o Chico tinha adormecido, ao fim da terceira malga de vinho.

À hora do almoço, o “Roleta” olhou para o telemóvel e começou a comentar o telejornal. A situação na Síria, a sonda que pousou num cometa, as medidas do Governo japonês para o crescimento da economia, o onze do Benfica.

(O onze do Benfica ele já sabia, não havia telemóveis que soubessem mais do que ele.)

Durante a tarde, leu Dostoyevsky, na versão em Russo, e ouviu Schubert. Contemplou a Natureza. Escreveu um poema sobre o “ocaso da luz sobre a planície”.

Peidou-se, não sem antes se certificar de que não havia ninguém por perto.

(O telemóvel tornava-o mais culto, mas não menos humano.)

À noite, continuou a receber os clientes da tasca com educação. No intervalo do futebol, disse um poema de Carlos Drummond de Andrade. Durante a segunda parte, e para espanto de toda a gente, levantou-se e saiu do lugar. O Benfica estava empatado, 0-0.

- Aonde vais, “Roleta”?

O telemóvel ia sugerir três formas de dizer a verdade, de forma extremamente educada. Mas a bateria acabou antes disso. O “Roleta” olhou para o aparelho, desligado, olhou para os clientes, que aguardavam, entrou em pânico e não soube o que dizer.

Até que teve uma ideia.

- Oh pá, tenho mesmo que ir cagar.

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