terça-feira, 18 de novembro de 2014

O sítio para onde vão as sondas

Há dias, uma sonda espacial pousou num cometa, pela primeira vez, na História. Não foi uma “aterragem”, foi uma “acometagem”. Se a sonda pousasse num jardim, seria uma “ajardinagem”. Se caísse em cima de um sacana, seria uma “assacanagem”.

Pronto, era isto que queria escrever. Não era nada.

(Tom Blackwell/Flickr)

Nunca me explicaram para onde vão as sondas, depois de concluídas as suas missões. Vou avançar com uma explicação credível, influenciada pelo facto de estar bastante curioso para ver o filme “Interstellar” (só não o vi porque eu e uns amigos nos enganámos no horário da sessão, o que constituiu uma estupidez ou, na lógica do filme, uma ruptura no espaço-tempo que nos colocou noutra dimensão, que não a da sala de cinema).

As sondas vão para um planeta distante, inabitado. Mentira: é um planeta distante, agora habitado por sondas.

As mais velhas ficam com os lugares de chefia da tribo das sondas. Mandam em tudo e colocam as sondas amigas em lugares de relevo. Só não lhes chamam “tachos” porque um tacho é um objecto que, para uma sonda espacial, não faz sentido. Chamam-lhes “depósitos”.

“O UY75FJL ainda há pouco chegou e já foi para chefe de departamento. Foi um amigo que lhe arranjou. Que rico depósito… Só queria um para mim.”

Têm rodas com algum desgaste e já não fazem grandes distâncias. Já não estão para se chatear. Apanhar uma pedra do chão, para recolher dados, é algo agora mais difícil: as costas das sondas velhas não as deixam abaixar-se com facilidade.

As sondas mais jovens estão cheias de energia, mas não sabem nada da vida de sonda. “São sondas novas, não pensam”, dizem as mais velhas. “Só querem festivais.” Um festival de sondas é uma planície cheia de sondas que ingeriram óleos adulterados. Ficam tontas, andam à roda, abraçam-se e dizem “Oh mano, somos amigos ou não somos?”. Algumas, em vez de apanharem pedras do chão, atiram-nas às outras. Depois, acabam todas à chapada. Mentira: à “pinçada” e à "pazada", que as sondas têm pinças e pás.

Enquanto que os seres humanos querem subir na vida, as sondas querem descer: uma sonda bem sucedia aterra, ou aluna, ou acometa. Descer é bom, na vida de uma sonda.

A sonda mais velha de todas, a primeira a ir ao espaço, lidera a tribo das sondas e difunde a sua mensagem há dezenas de anos.

“Um dia, vamos apanhar um humano, colocar-lhe um propulsor no rabo e vamos mandá-lo para o espaço. Só para ver se ele gosta.”

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