A Rádio Tasca

Na tasca do “Roleta”, toda a gente queria duas coisas: um telescópio, para uma profícua observação do espaço, e um transmissor FM, para partilhar o conhecimento sobre Astronomia que iria ser adquirido. O Manel, especialista em tecnologia, Aikido e charcutaria, procurou na net quais os componentes necessários para construir um transmissor.

(Alan Levine/Flickr)

- Olha que é difícil e caro. Mais vale comprar um já feito. – Disse.

- Pedimos ao Venâncio. Ele uma vez arranjou-me a máquina do café. Nunca mais saiu café fraco. – Disse o “Roleta”.

- Isto é um transmissor, não uma máquina de café.

- A máquina de café transmite café. Se fores ver, é parecido.

O telescópio veio primeiro. O “Mingos” tinha um sobrinho que tinha ficado em terceiro lugar num concurso de Astronomia, o que lhe valeu, como prémio, um globo terrestre. Mas, acrescentou o “Mingos”, “como era um puto esperto, gamou o prémio do primeiro classificado, que era um telescópio todo espectacular”.

Nas primeiras observações, conseguiram concluir qual o lado que ficava apontado para o céu. Feita esta primeira extraordinária descoberta, observaram a Cintura de Orion, Vénus ou a miúda gira que morava no 5.º esquerdo. Fizeram, também, alguns desenhos, como forma de registar as observações.

Havia apenas uma condição essencial: os desenhos tinham que ser feitos nos primeiros minutos, porque depois de toda a gente espreitar pelo telescópio, geravam-se discussões sobre como devia ser desenhada uma constelação, qual era o corpo celeste mais próximo ou quem deveria ser o ponta-de-lança do Benfica, no jogo seguinte.

As sessões passaram de duas horas de observação e meia hora de discussão, para dez minutos de observação, hora e meia de discussão e meia hora de cerveja e amendoins.

Depois da chegada do telescópio e de alguma pesquisa, encomendaram um transmissor FM, via Internet. Coube ao Manel colocá-lo a funcionar. Tentou de uma maneira, de outra, e ainda da primeira, outra vez, e aquilo não dava. Pediram ajuda ao Venâncio, mas ele só conseguiu pôr o transmissor a fazer menos barulho, proeza que conseguia habitualmente com máquinas de café. O sobrinho do “Mingos” deu uma ajuda e o transmissor começou a ser usado correctamente.

Emitiram desenfreadamente. Debates, música (discos pedidos pelo “Roleta”, que dizia “Se não pões essa música, vou ao quadro eléctrico e mando tudo abaixo nesta tasca”) e, de vez em quando, entrevistas, todas elas ao Presidente da Junta, para ver se ele financiava uma rádio local.

(O projecto nunca chegou a acontecer, também porque o “Roleta” não disponibilizou a tasca para estúdio. Segundo o próprio, o cheiro a fritos iria afastar os convidados.)

Até que se fartaram. Voltaram a beber cerveja e a discutir coisas mais importantes. Hoje, o telescópio é um cabide e o transmissor serve de apoio ao expositor onde são colocados os panados e as pataniscas.

Comentários