segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Pessoas que contam histórias confusas

Adoro pessoas que se perdem nas histórias que contam. Se preferirem um termo com mais cagança, gosto de pessoas que contam histórias com demasiadas ramificações narrativas.

(Esta segunda designação não só me permite revelar um vocabulário mais rico, como conserva a dignidade deste tipo de pessoas. Há quem lhes chame, apenas, “pessoas chatas”.)

(Bo Nielsen/Flickr)

Gosto de dizer a alguém algo como “Estive em Alvalade a ver o meu Sporting” e ter uma resposta como:

“Engraçado, estive com um primo, há tempos, num jantar de aniversário, de uma amiga minha que é investigadora numa universidade e que está a desenvolver um tipo novo de plásticos. Ela até está para casar com um gajo que é dono daquela empresa que lançou, há pouco tempo, aqueles piaçabas eléctricos rotativos, com wi-fi. Por acaso o gajo é porreiro, jogo à bola com ele às quintas-feiras, ele dá um bocado de lenha, mas joga bem. Noutro dia, por acaso, até ia levar duas solhas de outro gajo que joga comigo, aquele Armando, o barbudo, que anda no ginásio, o gajo parece um armário, se lhe desse uma chapada bem dada, estendia-o no chão. Mas os nossos jogos nunca tiveram problemas. Bom, tiveram uma vez, quando nós estávamos a ganhar 8-1 e um gajo da nossa equipa começou a dar toques, quando estava na baliza. As coisas iam dar para o torto. Mas esse meu primo também é do Sporting”.

Há algo mais mágico do que pessoas que contam histórias com demasiadas ramificações narrativas? Que jeito deve dar esta capacidade.

Num restaurante caro

- Ora aqui está a conta.

- Muito bem, 487 euros. Sabe, uma vez, em Florença, paguei quase isto por uma tosta mista e um sumo de laranja. Estava com a minha esposa, na altura, namorada, e até comentei “Já viste como esta conta é um tudo-nada exagerada, face ao que eu consumi?”. Eu até disse ao empregado que eles estavam a ser um bocado gatunos, disse-lhe em italiano, falava mais ou menos, na altura, porque tinha um tio que tinha uma padaria-pastelaria-churrasqueira-marisqueira em Milão e eu ia visitá-lo, no Verão.

Perante esta avalanche de informação, o empregado arranja uma desculpa para abandonar a mesa por alguns instantes. O suficiente para fugir sem pagar.

Numa “operação stop”.

- O senhor condutor passou aquela linha contínua.

- Por acaso, senhor agente, foi o meu primo que pintou aquela linha contínua e ele coloca em causa a própria continuidade da linha. Ele é pintor pós-moderno e gosta de questionar coisas como essa, ou como o sentido da vida. Ele começou como escultor, mas uma vez esculpiu um objecto um pouco fálico, em cima do carro do vizinho, e quase levou nas trombas. Para não ter mais chatices, dedicou-se à Literatura. Mas não gostava de escrever. Tenho um amigo que escreve bem, mas não tem muito tempo, porque está sempre em viagem. É vendedor de uma empresa de piaçabas eléctricos rotativos, com wi-fi. Já o meu primo acabou na pintura. Ainda pintou duas ou três gajas boas, mas depois dedicou-se às linhas-quase-contínuas. Como aquela.

O polícia dá sinal ao colega, que liga a sirene do carro-patrulha.


- Peço desculpa, mas vou ter que sair. É uma emergência.

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