Livro de Reclamações

Noutro dia, ouvi um director da Imprensa Nacional Casa da Moeda a dizer que um dos livros com mais procura, entre os produzidos naquela instituição, era o “Livro de Reclamações”.

(palo/Flickr)
Uma vez que possuo uma das mentes mais prodigiosas da minha geração, ou apenas porque sou parvo, dei comigo a pensar numa possibilidade que tornaria o “Livro de Reclamações” num objecto literário: e se houvesse alguém para escrever as nossas reclamações numa linguagem mais artística? E se fosse em verso? Eis um exemplo.

“Parei ali naquela tasca,
quis um panado e um copinho.
Mas a casa era tão rasca,
não tinha nem um petisquinho.

Mantive a paciência,
pedi um café e um bagaço.
Mas, sem mostrar grande ciência,
O dono fez de mim palhaço.

O café serviu-mo a sós,
enquanto mexia numa panela.
O bagaço, cá entre nós,
acho que veio com cuspidela.

Pedi o “Livro de Reclamações”,
“Isto é uma vergonha!”.
Ele expulsou-me aos encontrões,
“Vai-te embora, tens peçonha!”.

Foi por esta aventura
que deixei de ir a tascas.
Só vou a sítios com frescura,
das maçãs só como as cascas.

Passei a ser mais refinado,
não perdi a esperança.
Escolho sítios com cuidado,
subi o nível de cagança.

Escrevi esta reclamação,
num poema estruturado.
Mas não esqueço o que queria:
um copinho e um panado.

Comentários

  1. Carlos Costinha de Sousa29 de outubro de 2014 às 14:56

    Muito bom! E se as reclamações assim fossem estruturadas, o mundo seria bem melhor! :D

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  2. Costinha, este blogue desempenha um serviço público. :D

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