segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Arte pré-histórica

Um grupo de investigadores descobriu uma gravura feita por um Neandertal, que poderá constituir a prova de que esta espécie possuía capacidade de raciocínio e de expressão.

(Ricardo Giaviti/Flickr)
Aposto que vão convidar um especialista em Arte, de um museu qualquer, para interpretar a gravura. Ele vai dizer algo como:

“Esta gravura é a mais antiga demonstração das dúvidas, dos anseios e dos medos do ser humano, aqui representados por um antepassado da espécie. No meio da permanente e cruel luta pela sobrevivência, este ser aproveitou algum do seu precioso tempo de descanso para expressar um sentimento, uma vontade, um desígnio. São manifestações como esta, saídas dos contextos mais improváveis, que conferem à Arte uma superioridade perante todas as outras áreas da actividade humana. É isso ou outra coisa qualquer que eu agora quero ir almoçar, porque ainda tenho que ir a outra galeria e já estou atrasado”.

Tenho ideia de que o que aconteceu foi diferente. O Neandertal chegou à sua gruta, cansado de um dia de trabalho, deu um beijo à esposa, fez um ar cansado e começou a experimentar os instrumentos de caça.

Na parede.

Enquanto o fazia, pensava coisas como “este material só pode ser dos chineses, não aguenta nada” ou “com esta lança, posso dormir descansado, isto até fura a parede”. Estaria a testar o material e, ao mesmo tempo, a pensar que aqueles furos na parede podiam dar jeito para colocar uma estante ou pendurar um quadro ou um cachecol do Benfica.

Esperem, não havia livros. Não havia quadros. Não havia Benfica.

Mas, talvez houvesse mais do que isso. O Neandertal poderia pensar que era uma pena ele não ter jeito para artes. O primo dele até tinha feito uma exposição, numa gruta ali perto. Mas ele, nada. Gostaria de poder expressar-se através das gravuras. E de dizer algo como:

“A gravura é uma excelente demonstração das dúvidas, dos anseios e dos medos do Neandertal. No meio da permanente  e cruel luta pela sobrevivência, podemos aproveitar algum do nosso precioso tempo de descanso para expressar um sentimento, uma vontade, um desígnio. São manifestações como esta, saídas dos contextos mais improváveis, que conferem à Arte uma superioridade perante todas as outras áreas da actividade neandertalense. É isso ou já comia qualquer coisa”.

Mas, no fundo, aquilo foi só riscar pedra com lanças.

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