sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O meu truque favorito

O meu truque favorito de ilusionismo seria aquele que fizesse desaparecer as pessoas que estão sempre a dizer que o ilusionismo é um truque. Estas pessoas conseguem três feitos notáveis num só momento: perceber o óbvio, dizer o óbvio e estragar o momento.

(Internet Archive Book Images/Flickr)
É como quando alguém diz alguma coisa constrangedora e, em vez de ser guardado um precioso silêncio para que se possa avançar aquele momento triste, há outra pessoa que diz “Eeeeeeeeeeeeeei!”. Nestas alturas, tem que existir um silêncio suplementar, desta vez para anular o “Eeeeeeeeeeeeeei!”.

Podiam fazer desaparecer as pessoas que desvalorizam o ilusionismo. A elas e às pessoas que param os carros em todo o lado (neste último caso, teriam que fazer desaparecer também o carro, mas o David Copperfield fez desaparecer um avião, por isso…).

Pessoas que desvalorizam o ilusionismo são mais aborrecidas do que uma comissão parlamentar de inquérito em que se discuta a nomeação de pessoas para comissões parlamentares de inquérito em que se debata a distribuição dos lugares nas comissões parlamentares de inquérito.

Estas comissões não existem, mas inventei para dar uma ideia. É como os ilusionistas: inventam coisas que fazem pensar quem respeita aquela arte. Já para as pessoas que desvalorizam constantemente o ilusionismo, é tudo fácil.

Uma pessoa é serrada a meio, numa caixa, e volta a aparecer inteira, como se nada fosse. Para uns, será sempre espectacular (mais não seja, pelas assistentes, que são, por regra, bastante jeitosas). Para as pessoas que desvalorizam o ilusionismo, há sempre uma explicação.

“Ah, ela encolheu as pernas”, “Ah, é um truque de espelhos”, “Ah, é um buraco no espaço-tempo”, "Ah, é...". Esta última representa as pessoas que desvalorizam o ilusionismo mas, ao mesmo tempo, são desprovidas de imaginação.

Estas pessoas têm, geralmente, um buraco no espaço-tempo cerebral. Por isso é que veem o David Copperfield a atravessar a Muralha da China e dizem “ah, ele não passou mesmo”. Só o acto de negar que ele passou implica que alguma percentagem daquela mente, ainda que muito reduzida, acreditou que fosse possível passar.

É como aquelas pessoas que ouvem falar das mais absurdas teorias da conspiração e que, nos primeiros quinze segundos, acreditam. Só quando a consciência volta ao controlo é que percebem que o que ouviram não faz qualquer sentido.

Ou aquelas pessoas a quem dizemos "vou mandar-te um elefante e um saco cheio de notas por e-mail" e que respondem "agora estou sem bateria, mas em casa vejo isso".

Os ilusionistas, caso algumas pessoas não tenham reparado, criam ilusões. E vivem disso. Como diz o Joker, num dos filmes do Batman, “se és bom numa coisa, não a faças de borla”. Os ilusionistas são bons a enganar-nos e ganham dinheiro com isso.

Agora que penso nisso, muitas profissões encaixam nesta descrição.

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