O gajo que não percebeu

A minha figura preferida, no mundo da diversão nocturna, a seguir ao gajo dos cachorros, é o gajo que ainda não percebeu que não vai acontecer nada. Não perceberam o conceito? Eu explico com um exemplo.

(Wee Sen Goh/Flickr)
Num espaço de diversão nocturna, há uma despedida de solteira a decorrer. A noiva, tradicionalmente envergando algum tipo de elemento distintivo, como um lenço, uma tiara, uma faixa, algum tipo de objecto que se pareça com um pénis, ou todos estes elementos ao mesmo tempo (no caso de ter amigas mais azeiteiras), dança no meio do grupo, movendo-se entre os terrenos da diversão e do tédio, com grande agilidade.

Duas ou três amigas tentam acompanhá-la, nos intervalos dos momentos em que estão a aturar gajos bêbados que tentam iniciar a interacção verbal. Três ou quatro amigas estão sentadas, constantemente a olhar para o relógio, com uma cara de quem está há seis horas numa aula de Complementos de Análise Matemática, com dois chimpanzés a saltar em cima de uma mesa e a atirar pratos contra a parede. Um cenário de sonho, portanto. Como disse um amigo meu, “uma noite que ela nunca mais vai esquecer”.

Logo ao lado da roda formada pelas meninas que dançam, está o gajo que não percebeu que não vai acontecer nada. Com a melhor camisa às riscas, osclinando entre o por dentro, por fora das calças ou “o que raio aconteceu com essa camisa”, está a fazer uma dança que tanto pode ser uma dança como um excelente exercício de alongamento das costas. A espaços, dá uma passa num cigarro electrónico. Nesses momentos, o aparelho emite uma luz que coloca o gajo algures entre o exterminador implacável e o ET.

Ele está confiante. Vê-se em todos os seus gestos que ele acredita que vai sair dali com uma miúda. Toda a gente já percebeu o contrário, mas ele é um herói e os heróis não se guiam pelas ideias dos outros.

À medida que a noite vai passando, as suas hipóteses diminuem. Mas ele é um herói e os heróis não desistem.

O inevitável acaba por acontecer: ele começa a falar com uma das miúdas.

Mentira. O inevitável acaba por acontecer: as miúdas vão embora. Ele dirige-se à caixa de pagamento. “Desistiu”, pensamos nós. Errado, ele voltou para a pista. Um amigo meu surge com uma boa explicação: depois de horas a aprimorar a técnica, ele está pronto para se safar. Há um pequeno detalhe: a pista está quase vazia. Mas isso não muda nada. Os heróis não se interessam por estatística.

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