Não fui com a tua cara

Um estudo recente revelou que nós avaliamos pela cara a confiança que as pessoas nos merecem. É bom saber isso. É reconfortante. Anos e anos de desenvolvimento da Psicologia e da Sociologia, toneladas de conhecimento armazenadas em bibliotecas, com alguns dos especialistas soterrados pelos biliões de páginas escritas (não, não os salvem, eles gostam de lá estar!) e, no fim, avaliamos as pessoas pela cara.

(Martin Fisch/Flickr)
Ainda bem. Pensemos em todos os políticos que foram trafulhas. E pensemos que, quando os elegemos, pensámos: “Parece ser sério. Inspira-me confiança”. Isto é muito bom!

Pensemos no burlão que nos disse que trocava as nossas notas velhas por notas à prova de um holocausto nuclear (sim, porque quando houver um, vai ser super-importante ter dinheiro que resista). Pensemos que ele era bem falante e que nos inspirou confiança. E que lhe demos todo o nosso dinheiro.

Não, não fomos estúpidos, o gajo é que apelou ao nosso lado bom.

E o Hitler? Discursava perante as massas, convenceu muita gente. Parecia ser um gajo porreiro, um gajo que qualquer um convidaria para jantar (desde que não lhe pedisse para pagar a conta, não fosse ele passar-se da cabeça).

Pronto, o bigode era um bocado ridículo, mas o pessoal foi com a cara dele, na mesma.

O estudo acrescenta que as pessoas com sobrancelhas altas e maçãs do rosto proeminentes são as que inspiram mais confiança.

Parece que estou a ouvir alguém dizer: “Aquele gajo disse-me que ganhei um prémio e tenho que o ir reclamar a um hotel. Acho que é vigarice mas, ao mesmo tempo, as maçãs do rosto dele não parecem mentir”.

Já viram se fosse o nariz grande a inspirar confiança? O Júlio Isidro era rei. E se fosse a barriga? Fernando Mendes ao poder. E se, nas mulheres, fossem as mamas? Havia meia dúzia de actrizes pornográficas que poderiam aspirar à Casa Branca.

(“Aspirar”, neste caso, é mesmo aspirar, seus indecentes.)

Acrescento que, quando estamos bêbados, toda a gente parece ter maçãs do rosto encantadoras.

A grande conclusão deste estudo é que, por mais que aprendamos sobre relações humanas, é pela cara que tiramos a pinta das pessoas. No fundo, somos como os cães: podem ensinar-nos a fazer xixi na rua, mas gostamos sempre de voltar àquele tapete velho.

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