sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Conversa partilhada

Houve um tempo em que viajei diariamente de comboio. Nessa fase, conheci diversos tipos de personagens. Uma delas era o “homem que partilha conversas”.

(Simon Pielow/Flickr)
Esta personagem caracteriza-se por falar ao telefone com recato, quando ninguém está por perto, e falar bem alto, quando existe um público. É quando sente que as pessoas começam a prestar atenção à conversa que a mente do “homem que partilha conversas” se torna semelhante à de um especialista em artes performativas.

Ou de um especialista em tudo, visto que ele aborda diversas temáticas. Vou representar o tipo de afirmações que esta personagem profere.

“Sabes que eu tenho muita experiência nisso, sou um profissional da engenharia há trinta anos. Eu estive para projectar a ponte Vasco da Gama. Não fui eu porque, na altura, fui de férias para Benidorm.”

(As pessoas começam a rir da situação.)

“Sabes que eu estou por dentro desse assunto, porque tenho um amigo que trabalha nessa área. Eu falei com ele, até porque tivemos um jantar… foi tudo à grande, pra cima de 50 euros. No fim, ainda íamos às gajas, mas ele viajava no dia seguinte.”

(As pessoas sentem alguma vergonha alheia.)

“Acabei por ir às gajas sozinho.”

(As pessoas aumentam o nível de vergonha alheia.)

“Comprei um carro clássico, ainda gastei 50 mil na brincadeira. Mas o carro tem a minha pinta. Sabes que eu também sou clássico. As gajas novas ainda olham para mim.”

(Uma miúda começa a vomitar, no fim da carruagem.)

“Estou em viagem, vou de comboio… É, gosto de vir de comboio, acaba por ser um passeio. Mas posso falar, que ninguém está a ouvir.”

(O homem olha em volta, para confirmar. Nesse momento, toda a gente olha para o lado e faz de conta que não está a ouvir.)

“Olha, precisava de um favor daqueles que a gente sabe. Não, posso falar à vontade, ninguém está a ouvir. Era, era, precisava aí de um biscate. Oh pá, já sabes que eu trato bem as pessoas.”

(O homem é o único a pensar que está a falar em código. Toda a gente percebe que ele está a pedir algo obscuro. Mas ele resolve ser mais claro.)

“Claro, já sabes que eu trato bem as pessoas. Eh eh eh!”

(A miúda recomeça a vomitar.)

Perto da última estação, o homem prepara-se para terminar a chamada.

“Olha, tenho que desligar, vou chegar à estação e aquilo tem muita gente, não é sítio para falar.”

Mais vergonha alheia.

O único cuidado a ter com este tipo de pessoa é não lhe ligar. Pelo menos, se ela estiver num transporte público.

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