sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Aconteceu no supermercado

Entre os 150 lugares mais fascinantes do Mundo, 81 são supermercados. Não, não contei, mas os economistas também não contam muita coisa e depois as surpresas acontecem. Nos países, nos bancos, nas empresas e nas mercearias.

(Roadsidepictures/Flickr)


Mas os supermercados são aquele lugar mágico onde tudo acontece. Tudo mesmo: enquanto o leitor lê este texto, está um puto a lamber bacalhaus (um amigo meu jura que o fez, na infância), está um gajo a provar as uvas às escondidas e uma senhora a ler uma revista de ponta a ponta, enquanto espera pela vez de pagar. Como está atenta à leitura, toda a gente lhe passa à frente. Até o gajo das uvas vai passar, quando estiver de barriga cheia. Pode estar a haver sexo desenfreado no armazém, mas só com o acesso às imagens da segurança podemos confirmar. O segurança deve estar a gravar, para pôr na net.

No supermercado, um gajo rude, moderadamente saloio, estaciona o carro de forma a ocupar dois lugares. Caminha pelo meio da via, ainda no parque, olhando com ar de censura para quem passa por ele de carro e tenta contorná-lo.

Chega aos carrinhos e tenta tirá-los sem moeda. Uma ou outra tentativa e pensa “um dia, descubro”. Entra no supermercado e vai com ideia de comprar queijo, charcutaria e um “pack” de minis.

Passa pela secção dos livros de auto-ajuda e fica curioso com os títulos. “Pareça mais inteligente”, “Melhore o seu rendimento no trabalho”, “Melhore a sua vida sexual”, “Física de Partículas para Totós”, “Física de Partículas para Gajos Muito Estúpidos”, “Segredos da cozinha vegetariana”. Neste, ele não pega, porque “comida vegetariana não é de macho”. Ainda assim, traz um livro sobre “Como ficar rico em 500 dias”, escrito por um gajo que, entretanto, faliu.

Passa na zona de materiais de construção e compra uma rebarbadora nova, que a dele “já não dá rendement” (ele diz assim, como se fosse em Francês, para ser mais fixe).

Leva ainda uma bola de futebol do Benfica, para o mais pequeno e, na zona de roupa de senhora, ainda pensa em levar qualquer coisa sensual, para a esposa, mas tem vergonha de escolher.

Encontra um amigo e fala sobre duas ou três questões relevantes de futebol. O tempo passa e dirige-se para a caixa. Tudo isto, sem ter ido buscar queijo, charcutaria e cerveja.

Acaba a tarde no café, a comer uma sande de presunto e a beber uma mini, enquanto lê, atentamente, “Como ficar rico em 500 dias”.

No armazém, a cena de sexo desenfreado termina. Há artigos para repor.

Esta história é fictícia, mas suficientemente verídica.

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