Viajas à noite e mudas de estação de rádio

Viajas de carro, durante a noite. Estás farto de ouvir o Pharell Williams dizer “Because I’m happy”, a Adele a dizer “Someone like you” ou o Bonga a dizer “É o homem do saco, ele vai-te comer”.

Vai ao YouTube, existe mesmo e é o melhor entre os três temas que mencionei.

Decides procurar uma estação de rádio que não costumas ouvir, para desenjoar. Por sorte, encontras um programa de música daqueles verdadeiramente alternativos, tão alternativo que nem os amigos do locutor o ouvem. Nem o locutor ouviria, se não tivesse que fazer o programa. Se ele dissesse “eu vou fazer explodir a Torre de Belém”, não haveria medidas de segurança.

( _ambrown/Flickr)


Mesmo que alguém o estivesse a ouvir, ninguém o entenderia. Aliás, é possível entendê-lo, desde que se seja oriundo do mesmo planeta que ele.

Ou que se tenha fumado a mesma coisa.

Adiante. O que quer que ele diga, ninguém vai contestar. Como se, numa aula de Física Quântica, o professor disser que os quarks são feitos de estrôncio, com duas colheres de gálio e 100 gramas de farinha de trigo.

Dado que ninguém sabe o que é farinha de trigo, ninguém consegue contestar.

A voz do locutor é rouca, como sempre. Parece que ele está a falar dentro de uma gruta. Não está: ele vive mesmo numa gruta, mas sai para fazer rádio, todas as noites. Tipo o Batman, mas sem a parte fixe.

O sistema de som é bom, tão bom que oculta o barulho das pedras de gelo, no copo de whisky.

O locutor é este não por ser bom, mas por ser barato: gasta quatro pilhas tipo D, que duram um mês e meio (se o desligares enquanto toca a música).

O locutor vai dizer nomes estranhos de bandas. Se forem inventados, ninguém se importa. Ficas, às 3:42 da manhã, com um exclusivo de You’re na ass”, último single do novo álbum dos “Bathroom Bucket”, intitulado “My diesel engine is very nice”.

Mas, o mesmo single, num programa alternativo de outra rádio, pode chamar-se “Internet Screwdriver”, ser da autoria dos “Philosophical Lion” e retirado do álbum “Math Spoon”.

Não interessa o nome, nunca vais conhecer. Nem os autores daquela música sabem que ela está a tocar.

Quando dás por ela, ouves o Bonga a dizer “É o homem do saco, ele vai-te comer”. Mas com outro nome. Já foste ao YouTube e percebes que estás a ser enganado. Aquele programa deixou de ser alternativo.

Entretanto, o teu carro avaria durante a viagem nocturna. Acabaste de entrar num filme de terror foleiro. Mas isso já não vou ser eu a contar.

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