quinta-feira, 31 de julho de 2014

A vida em episódios

Está a dar o Super-Homem, na televisão. Está a enervar-me, não porque use as cuecas por cima das calças. Estou farto desse assunto: o homem veste-se como quer. Ainda por cima consegue salvar o Mundo, mais direito lhe dá. É como ser o dono da bola, num jogo de miúdos: podes ser um rebo, mas jogas sempre.

O que me irrita no Super-Homem é o facto de não usar máscara e, mesmo assim, ninguém descobrir a identidade dele. Parece que as pessoas fazem de conta que não viram, como quando falam com alguém que tem ranho a sair do nariz e não avisam.



Mudo para um canal de séries. As séries são o vício do século XXI. Há pessoas tão viciadas em séries que vivem por episódios. Aliás, os episódios das séries não são episódios: são doses. Ministradas à bruta, que é para dar mais moca. Não há finais de temporadas, há inícios de desintoxicação.

Eu gosto da “Guerra dos Tronos”, mas não tenho paciência para esperar um ano pela nova temporada. Decidi avançar para os livros. No fundo, fui como aquelas pessoas que não esperam pelo Ano Novo e dizem “Se não nos virmos antes, bom ano!”. Como se não pudessem dizê-lo a 5, 6, ou a 15 de Janeiro. Eu disse à “Guerra dos Tronos”, “se não nos virmos antes, estarei a ler os livros”. Ganha-se no avanço na história, perde-se nas cenas de sexo.

A “Guerra dos Tronos” tem tantas personagens que devia haver uma temporada, entre duas temporadas, só com as instruções.

Esta série vai demorar tantos anos, que o final, seja ele qual for, vai desiludir. Tal como na série “How I Met Your Mother”. É como quando esperamos duas horas pela comida: pode ser divinal, mas o nosso mau humor vai bloquear-nos o paladar. E tornar-nos uma mistura de urso (pelo apetite) com galinha (pela estupidez).

Detesto séries de investigação criminal. O momento mais emocionante é sempre no fim. Quando aparecem os nomes do realizador, dos argumentistas e por aí.

Se o Chuck Norris entrasse nas séries de investigação criminal, cada episódio tinha oito segundos. Em alguns, nem chegava a haver crime. Noutros, nem chegava a haver episódio.

Última hipótese à televisão: um concurso de cantores. Aquele tipo de programa em que muitos dos aspirantes a cantores têm respeitáveis atributos. Até começarem a cantar.

Nos concursos de cantores, todos querem ser o Frank Sinatra. A maioria não consegue melhor do que aquele tio que cantou, bêbado, o “My Way” no casamento de um amigo nosso. E o tio tem mais piada. Sobretudo porque nós também estávamos bêbados.

Eu adoro estes programas. Comparados com tortura, são excelentes. Estava a mentir: nunca damos uma última oportunidade à televisão. É como quando bebemos demasiado: é sempre a última vez.

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