quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Tralhas electrónicas no ginásio

A tendência dos ginásios é ficarem cada vez maiores. Não, não é para caber mais gente. É para caberem mais objectos. Hoje, há malta a levar tanta tralha para o treino que já aparecem empresas de mudanças a fazer o circuito dos ginásios.

Eu não ligo muito ao Instagram e não uso o MBWay. Mas aquilo que faz de mim um Neandertal desta vida é não levar nada que pareça, sequer, moderadamente tecnológico para a sala de treino. Hoje, toda a gente tem um telemóvel, uma pulseira e uns auscultadores, no ginásio. Mas este é o kit básico. Há quem leve desfibrilhador (nunca se sabe…), ventosas e pinças (dez minutos na passadeira dão sempre para um electrocardiogramazito, assim de fininho), GPS (a passadeira é sempre em frente, mas não se sabe onde vai dar), oxímetro (para saber se a respiração está certinha) e o tablet (porque ver uma série no telemóvel é chato, sobretudo para ler as legendas).

Toda a gente tem uma app para treino. Quando os telemóveis tiverem a possibilidade de emitir hologramas, as apps vão ter um treinador que fala connosco. Como tudo tem que dar para personalizar, os utilizadores poderão escolher entre um treinador fofo, que diz coisas como “Vá lá, tudo consegues. Quem é a minha coisa mais cutxi-cutxi, mais linda, quem é?”, e o treinador que parece um sargento da recruta, que diz “Mexe esse cu gordo!”. Se houver um erro informático e a app transitar de um para outro, pode resultar algo como “Quem é a coisa mais linda que parece um panda com o cu de um rinoceronte, mexe esse cu, c@r@$#&!”. Enquanto a app for gratuita, maravilha. Depois, a versão gratuita vai ter só treinadores gordos, quem quiser um treinador fit paga 9,99€ por mês, que isto não é o Candy Crush.

Um dia, haverá uma app com um treinador holográfico para o sexo. Estás a imaginar aquele amigo que sai do carro para ajudar a estacionar, que faz gestos e diz “Mais, mais, mais, tá bom!”? O treinador sexual vai ser parecido. “Mais para ali, só mais um bocadinho, OK, podes ir, agora tudo para lá, não tenhas medo, força, quando for para parar eu digo”.

Hoje, o desportista é um emaranhado de fios, que saem do telemóvel (que está numa braçadeira), dão a volta pela roupa, saem pelo pescoço, provocam pré-asfixia, vão ao outro braço e acabam nos auscultadores. Estes desportistas parecem estar num filme futurista. Em frente às câmaras, duvido, mas junto aos operadores de câmara, a enrolar cabo, seguramente. É bom que sejam do futuro, que não deve haver, nos dias de hoje, nenhum electricista capaz de desembaraçar aquilo.

Hoje, esperamos muito mais tempo para que as máquinas fiquem livres. Não porque as pessoas treinem mais, mas porque os intervalos são passados a ver coisas no telemóvel.

– Posso usar a máquina?

– Só um bocadinho. Falta uma série.

– São vinte repetições?

– Não, são dez. Episódios.

Noutro dia, um senhor estava a reclamar porque nem conseguia ouvir o amigo, que estava ao lado dele. E é curioso, porque ninguém estava a falar. Era mesmo por causa do senhor da passadeira da frente, que tinha levado um gerador.

E ainda bem, porque deu para alimentar a PS4 do rapaz da bicicleta.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Trabalhos de grupo

E aquelas noitadas a fazer…

Esta escolha de palavras pode revelar-se de enorme sabedoria, na medida em que as vossas mentes lavajonas ficam logo a pensar em forrobodó. Adoro fazer isto.  

E aquelas noitadas a fazer trabalhos de grupo, nos tempos da universidade? A debulhar livros e a empurrar conhecimento científico para as páginas de um documento que seria entregue no dia seguinte. Quando o prazo para entregar esse documento era, imaginem, precisamente o dia seguinte.

Como era saboroso entregar coisas em cima da hora…

Isto ocorreu-me porque tenho saudades de ser estudante. Não foi nada, ocorreu-me ao ver o nosso ilustre Ministro das Finanças a entregar na Assembleia da República o Orçamento do Estado para 2019, mesmo em cima da hora. No fundo, o Orçamento é um trabalho de grupo, feito por bastantes pessoas. Eis algumas razões para o documento ser, invariavelmente, entregue quase no fim do prazo.

A net é fraca
Da mesma maneira que rafamos nos hospitais, nos comboios e na tropa, também rafamos na net do Ministério das Finanças. Temos o pacote mais fraquinho. Basta um funcionário estar ali a papar rede no Netflix e fica toda a gente a patinar. É a malta a ligar de gabinete para gabinete, “Tens net?”, “Tenho, mas está lenta”, “É sempre a mesma merda…”. E o tipo ali, só mais um episódio. Em resolução máxima. A malta a demorar 16 minutos a sacar um Excel e ele ali, só na emoção do fim do episódio.

O Excel é grande
O tipo que o confere demora imenso tempo na tarefa. E é bom que assim seja, o Excel do Orçamento do Estado ainda deve ter algumas células. Apagas indevidamente uma delas, ou pões uma vírgula fora do lugar, e mandas milhares de reformados para a pobreza extrema. E se quiseres mandar reformados para a miséria não vais para revisor de Excel: tentas a tua sorte como Primeiro-Ministro.

Há um designer no Ministério das Finanças
O documento está prontinho a entregar, mas formatado à balda, porque não há tempo para pô-lo em condições. Entretanto, o designer calha de passar pelo gabinete onde a malta está a conspirar contra ele. “Mas que merda é esta? Que espaçamentos são estes? De quem foi a ideia de pôr esta merda em Comic Sans? Acham que isso é font que se apresente num Orçamento do Estado?”. Neste momento, o Orçamento passa a ser um projecto do designer. E ele acabou de retirar a confiança política ao Ministro das Finanças.

Alguém apagou o documento da Dropbox
O Orçamento estava feito há três semanas. Porém, um funcionário apagou-o, sem querer, enquanto arranjava espaço na Dropbox, para guardar fotos das férias em Maiorca.

O Ministro esteve à espera de um livro
Quando estava na fase final da elaboração do documento, o Ministro percebeu que lhe dava jeito um livro de que lhe tinham falado. Procurou-o na biblioteca, mas alguém o tinha requisitado. Procurou na net, mas demoraria duas semanas a chegar. Ainda ponderou accionar a opção “Express”, para ele chegar em três dias, mas não tinha orçamento para isso. Telefonou ao estudante que o requisitou e explicou que o Orçamento do Estado estava em causa. O estudante, e bem, explicou que já tinha passado muitas noitadas acordado por causa daquele trabalho e que, por muito que o Orçamento fosse importante, também aquela cadeira o era, para ele passar de ano.

A malta facilitou
Na volta, foi só isto.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Votar democraticamente em fascistas


Em dia de Implantação da República, parece-me bonito falar sobre Democracia. Precisamente, sobre essa liberdade adorável e inquestionável dos eleitores para fazerem merda. Para mostrarem um apetitezinho irreprimível para votar em fascistas. Que delícia, que coisinha mais suculenta, um regime em modo suicida, pessoas a exercerem a liberdade de matar a sua liberdade. Uma sociedade depositar esperanças num extremista é tipo matar a sede com água do mar.

Numa segunda análise, os ditadores contribuem mesmo para um mundo melhor.

Liberdade de expressão
Todas as pessoas podem dizer o que pensam, livremente. Mesmo quando estão a ser espancadas numa prisão, por terem dito o que pensavam, podem  continuar a dizer que o governo não presta. Pelo menos, enquanto o maxilar mexer.

Liberdade de imprensa
Todos os órgãos de comunicação podem exercer a sua liberdade editorial. Tudo bem, em cada vinte notícias, dezanove são eliminadas pela censura, mas também eram, de certeza, dezanove notícias fraquinhas, pouco jeitosas. A notícia que sobra, por seu lado, será boa, nutritiva, e poderá ser primeira página dos jornais ou abertura dos noticiários. Se o governo decretar que um, ou dois, ou quase todos os órgãos de comunicação social fechem, por terem andado a portar-se mal, haverá sempre quem publique livremente, à bruta mesmo, cinco por cento das notícias.

Igualdade
Todos são tratados da mesma forma, perante a lei. Os opositores do regime, por exemplo, acabam todos presos, mortos ou mortos na prisão. Lá está, todos iguais.

Pluralismo partidário
Continua a existir actividade partidária. Assegurada só por um partido, mas é actividade na mesma.

Separação de poderes
O poder judicial continua a ser exercido pelos tribunais. Nunca pelo governo, nem pensar! O facto de o governo dizer aos tribunais como devem decidir é apenas aconselhamento sentimental. É tipo o Gustavo Santos a dizer como podemos gostar mais de nós.

Educação
É incrível: deixa de haver insucesso escolar. As crianças passam todas a ter boas notas. É verdade, também deixam de aprender, basta-lhes saber a história em verso dos heróis nacionais, mais a história do grupo de crápulas que manda no país, marchar à entrada e à saída das aulas e a média de 18 valores está ali à mão.

Cultura
A criação artística é incentivada como nunca. Passa a ser feita apenas pelas três pessoas autorizadas pelo regime, mas não perde o valor. São três pessoas capazes, de certeza.

Defesa
O exército aumenta exponencialmente. Isso porque até o nosso periquito passa a ser militar. Só não passam a ser todos os teus amigos porque alguns estão presos, prestes a ficar com o maxilar ao dependuro. E somos todos quase tão importantes para o país como seis ou sete mísseis intercontinentais.

Malta que apoia fascistas, cuidado com essa raça dos democratas. Eles estão a oprimir-vos. Já impediram o Donald Trump e o Kim Jong-Un de ganharem, como era merecido, o Nobel da Paz. O que foi quase tão injusto como tirarem um Nobel da Literatura ao Pedro Chagas Freitas.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Quando o cinema nos surpreende


Costumo começar os meus textos por uma introdução, moderadamente interessante, que funciona como uma espécie de câmara de descompressão, antes de entrarmos na parte do texto em que eu digo alarvidades sobre temas diversos. Mas o que eu tenho para contar é tão excitante, que nem consigo fazer essa pequena introdução, tenho mesmo que contar já a novidade.

Olha, que engraçado. Sem querer, acabei por fazer essa mesma introdução, sem a fazer.  No fundo, fiz a introdução, referindo o hábito de a fazer. Que é quase o mesmo, embora sem o efeito espectacular, que apontar um vidro para outro vidro: ficamos com a imagem de um vidro, dentro de um vidro, dentro de um vidro, dentro de um vidro, dentro de um vidro, dentro de um vidro…

Acho que já percebeste.

O que eu tenho para contar é que vai haver um filme sobre um lutador de boxe. Chama-se “Creed II” e é a continuação do “Creed: O Legado de Rocky”. Ambos os filmes contam com a participação de Sylvester Stallone, no papel de Rocky Balboa que, à sua pala, já teve seis filmes.

Enquanto que, no primeiro filme, Rocky treina bastante para ficar em forma e ganhar um combate, no segundo, Rocky treina bastante para ficar em forma e ganhar outro combate. Mas a história não acaba aqui: no terceiro filme, Rocky treina bastante para ficar em forma e ganhar um combate e, no quarto, Rocky treina bastante para ficar em forma e ganhar outro combate.

É incrível como têm reinventado a história!

No quinto filme, Rocky deixa de lutar e passa a ser treinador. No sexto filme, Rocky regressa à competição, numa idade em que tal seria impensável, para lutar com um pugilista muito mais jovem. Em “Creed” e em “Creed: O Legado de Rocky”, Rocky é treinador.

Isto é demasiado criativo para o espectador aguentar sem ficar com o coração nas mãos.

Faz-me lembrar dos filmes da franquia do “Parque Jurássico”. No primeiro, fazem um parque com dinossauros, as coisas correm mal e os dinossauros comem pessoas. Já no segundo, alguma coisa corre mal e dinossauros comem pessoas. No terceiro, uma viragem radical: alguma coisa corre mal e dinossauros comem pessoas. Em “Mundo Jurássico”, algo novo e refrescante: alguma coisa corre mal e dinossauros comem pessoas. Ainda não vi o filme mais recente, nem vou ver, porque temo que, contra todas as previsões, alguma coisa corra mal e dinossauros comam pessoas. Esse desfecho é tão absurdo, tão afastado da identidade da saga, que nem tenho coragem de ver o filme.

É como no próximo “Velocidade Furiosa”, acho que o 145.º filme da franquia. Diz-se por aí, em fóruns da especialidade, que os produtores chegaram à conclusão de que, nos outros 144 filmes, estava-se a cair um bocado na repetição, e que, por isso, vão fazer um filme capaz de mudar totalmente o paradigma da saga. Pela primeira vez, tipos com carros extremamente velozes e azeiteiros farão corridas no meio da cidade, colocando os cidadãos decentes em perigo, ao mesmo tempo que praticam outras actividades ilegais.

Mal posso esperar!

Filmes como “O Padrinho”, “O Clube dos Poetas Mortos” ou “Melhor é Impossível”, hoje, não passariam pelo cinema, por falta de aposta das produtoras. No máximo, seriam séries. Que ninguém iria ver, porque estaria toda a gente ocupada na temporada 32 de “The Walking Dead”, na qual, pela primeira vez, pessoas fugiriam de zombies enquanto desenvolveriam novas formas de organização da sociedade e se matariam umas às outras.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Evitar conversa de circunstância

Conheço alguém que tem um hábito extraordinariamente útil. Não, não é comer uma maçã por dia: eu como uma maçã por dia e isso não faz de mim espectacular. Agora que penso no assunto, nada faz de mim espectacular.

Adiante. Conheço alguém que tem um hábito extraordinariamente útil: despedir-se das pessoas dez segundos antes do momento indicado para tal. Segundo o próprio, isto é ainda mais útil para eliminar conversas de elevador. Uns segundos antes de o elevador chegar ao destino, ele despede-se. É tão desconcertante que resulta: a conversa é subitamente interrompida e ficamos com um ar entre o surpreendido e o imbecil, a tentar perceber se ele sai no próximo, se não sai, se acha que somos palermas ou se gostaria que o planeta explodisse naquele momento. É mesmo isso que estás a pensar: todas estas hipóteses são tremendamente emocionantes.

Nota mental: algumas pessoas só fazem um ar imbecil, independentemente do contexto. E não, desta vez não sou eu.

Este hábito estranho fez-me pensar na quantidade de conversa barata que despendemos, ao longo de uma vida, sem que nada o aconselhe. Como tal, resolvi criar um “faça você mesmo” mas, em vez de ser sobre origamis, sobre cestos de vime ou sobre esculturas pós-modernas, é sobre como evitar situações de conversa barata.

Elevador
Cruzas-te com um vizinho chato no elevador. Ele começa uma pequena sessão de conversa barata. Podes interrompê-lo. “Estimado vizinho, não obstante o facto de as leis da aleatoriedade nos terem colocado a viver no mesmo prédio, não somos obrigados a simular apatia ou consideração. Assim sendo, e tendo em conta que eu não sou meteorologista, não gosto de futebol e não tenciono discutir a política de ruído do prédio consigo, preferia que fizéssemos esta viagem em silêncio. Está a ouvir este ‘nheeeee-nheeeee’ que o elevador está a fazer? É irritante, mas é tudo o que eu quero ouvir, numa viagem de elevador. Caso precise de algo e eu puder ajudar, não hesite em, aí sim, me dirigir a palavra. Obrigado e bom dia.” Assim, simples e eficaz.

Transporte público
Nesta situação, se outra pessoa decidir falar contigo, convém que faças uma distinção: se for um velhinho, sê uma pessoa decente e dá-lhe um bocado de atenção. Se não for, podes safar-te na mesma. “Desculpe, mas o facto de estarmos no mesmo meio de transporte não nos coloca no mesmo destino, que não seja aquele que espera todos os seres que padecem de finitude. Um dia, não estaremos cá, e é bom que saibamos viver com essa realidade. Mas é só isso: a experiência de viajarmos juntos neste meio de transporte não nos coloca em sintonia. Foi só o acaso que nos juntou. Está a ouvir este “Rrrrrrrrr” do motor do veículo? É tudo o que desejo ouvir, até sair. De qualquer forma, se tiver dúvidas sobre paragens, não hesite em questionar-me. Obrigado e boa viagem.” Estás no bom caminho.

Repartição de Finanças
Enquanto esperas para ser atendido, és abordado por um senhor, que te diz que isto está cada vez pior. Podes sair da situação. A bem. “Caro concidadão, apesar de estarmos destinados a esperar juntos, havendo até a possibilidade de termos senhas com números consecutivos, não pretendo ocupar este tempo com conversas de cariz sociopolítico. Não só, porque não sei se o senhor está habilitado para tal, como também, por recear que isto descambe para afirmações de cariz populista ou até protofascista, que é uma classe, infelizmente, em franco crescimento. Está a ouvir este murmúrio resultante do somatório destas vozes todas? É tudo o que eu quero ouvir, durante esta espera. Obrigado e bom dia.” Sem hipótese de resposta.

Estádio
Estás a assistir a um jogo da tua equipa e um adepto ao teu lado resolve partilhar contigo um pensamento sobre a equipa. Podes evitar a conversa de circunstância. “Caro adepto do meu clube, apesar de partilharmos o interesse por esta agremiação, não estou em condições de assegurar que o seu interesse clubístico seja suficiente para o habilitar a uma conversa inteligente sobre este desporto. Sendo assim, limitemos a nossa interacção ao festejo em simultâneo, de cada vez que a nossa equipa marcar um golo.” Com esta abordagem, estás a ganhar 1-0.

Bar
Estás num bar e apresentam-te uma pessoa que consideras extremamente interessante. Sê sociável. Não comeces com merdas.

sábado, 15 de setembro de 2018

O que fazer quando te cantam os parabéns


Somos capazes de regenerar órgãos do corpo humano. Somos capazes de descobrir tratamentos para doenças complexas. As máquinas são cada vez mais autónomas. Somos capazes de enviar sondas espaciais para todos os cantos e esquinas do Universo. Sim, se há malta a defender que a Terra é plana, também o Universo deve ter cantos e esquinas.

Ainda ninguém inventou uma forma de uma pessoa conservar a dignidade, enquanto lhe cantam os parabéns.

Ninguém sabe, realmente, o que deve fazer nesse momento. Cantar é estúpido: não vais cantar os parabéns a ti mesmo. Isso é o mesmo que enviar uma mensagem para ti. Ou obteres prazer sexual por ti mesmo. Bom, não vamos por aí. Retém só esta ideia: não cantes os parabéns a ti mesmo. É estúpido e deve haver uma regra qualquer que diz que dá azar. Uma regra saída daquele conhecimento empírico sólido que alega que pisar cocó na rua dá sorte.

Podes bater palmas, mas isso tem riscos. Para além de fazeres figura de parvo, podes prejudicar o ritmo a que o grupo está a cantar. Se, em 90% dos casos, as pessoas cantam pessimamente os parabéns, fora do ritmo a coisa fica insuportável.

Podes fixar o olhar em alguém, mas não vai ajudar. As pessoas estão a olhar umas para as outras, por duas razões: para não verem as figuras de parvo que estás a fazer e para detectarem os mais desafinados. Ninguém está a olhar para ti. É triste, mas é a realidade: enquanto te cantam os parabéns, as pessoas não querem estabelecer contacto contigo.

Quando os parabéns chegam ao fim, não respires de alívio: faltam aqueles apêndices, aquela espécie de encore que as pessoas adoram. Ainda faltam alguns segundos até seres livre.

Existem algumas soluções para este problema. Podes, por exemplo, contratar um tenor para cantar os parabéns. Ele vai fazer tamanha demonstração de capacidade vocal que vão estar todos embasbacados a olhar para ele. É o mesmo que dizer “vais estar de folga”.

Podes contratar um malabarista, mas há mais riscos implicados. Um objecto a arder, ou um objecto pontiagudo, ou um objecto pontiagudo a arder a voar na direcção errada pode correr mal. Ou bem: depende de quem levar com ele.

Um ilusionista também pode ajudar. Enquanto as pessoas te cantam os parabéns, ele pode fazer um daqueles números em que se serram pessoas. Até podes escolher alguém menos agradável para ser serrado. E os miúdos adoram. Ilusionistas, não sei, mas pessoas a serem serradas, de certeza. É tipo terem o GTA no aniversário do primo.

Podes disfarçar-te. O tempo que demorarás a ser desmascarado é, mais ou menos, o mesmo que demora a cantar os parabéns. Apêndices incluídos. Mas tens que ser rápido, para tirar o disfarce a tempo de apagares as velas. Implica agilidade que, com a idade, se vai perdendo.

Podes fugir do planeta numa sonda. Mas desliga as comunicações, ou alguém vai entrar em contacto e cantar os parabéns na mesma. E numa sonda é difícil arranjar um ilusionista.

sábado, 1 de setembro de 2018

Prioridades são prioridades


Hoje escrevo com muito sono. Foi difícil adormecer esta noite, com tanta emoção. Como é óbvio, já percebeste do que estou a falar: ontem, fechou o mercado de transferências de jogadores do futebol português. De repente, não encontro nada mais importante na vida, do que isto.

Antigamente, o dia 31 de Agosto era o dia em que acabavam as férias de muitos e em que a malta estudante começava a pensar que as férias grandes, que pareciam ter durado dois anos, davam sinais de estar para acabar. Ainda bem que essas tretas passaram para segundo plano, porque o que realmente importa saber, no dia 31 de Agosto, é que um clube português está interessado em contratar um ponta-de-lança chileno que joga num clube de 6.ª categoria do campeonato espanhol; que tem 1,92m; que joga bem com os dois pés; que é excelente a consertar veículos automóveis (um tio dele tinha uma oficina); que usa, na maior parte das vezes, t-shirts largas, de cores neutras, sem grandes enfeites; que gosta de churrasco e que, uma vez, teve uma multa de estacionamento.

Tu até estavas a pensar que a tua vida era miserável e que não acontecia nada de novo e, de repente, percebes que há coisas mágicas no Mundo. Felizmente, vivemos num país com vários canais de cabo destinados à informação que, em vez de exercerem um jornalismo que promova o debate o sobre temas secundários, como as questões ambientais, a emergência da extrema-direita na Europa e nos Estados Unidos, ou até o estado da Educação em Portugal, dedicam os horários nobres ao debate da bola.

Ah, sabe tão bem…

Fico mesmo contente, porque isto é uma interpretação sublime, sábia e comercialmente sensata dos canais de cabo: “eles querem é forró”. E é verdade: se a gente quisesse um jornalismo de qualidade, não entregava ao Correio da Manhã o primeiro lugar das vendas de jornais, nem boas audiências à CMTV. Portanto, mandem forró futeboleiro para cima de nós, que a gente até sente um arrepio em algumas partes do corpo.

Eu, pelo menos, sinto, que isto do debate da bola muda a nossa vida.

Sendo assim, as noites em que algumas televisões apostam tudo são: a Passagem de Ano, a noite dos Óscares, o Festival da Canção e o 31 de Agosto, dia do Grandioso e Emocionante Fecho do Mercado de Transferências. Ainda não percebi como é que as câmaras municipais não colocam ecrãs gigantes nas principais praças, à volta dos quais se reuniriam famílias inteiras a acompanhar aquelas contagens decrescentes super-emocionantes.

“Falta menos de uma hora para o fecho do mercado e o Benfica ainda não contratou ninguém.” Ui, isto até faz um gajo tremer. Mesmo que tenhas passado todos os dias da tua semana… Espera, deixa-me repetir, TODOS OS FI%&=S DA P%#A dos dias da tua semana…

Agora já estou mais calmo.

Mesmo que tenhas passado todos os dias da tua semana a papar programas de debate do futebol, em horário nobre, é um privilégio chegar ao 31 de Agosto e viver o Grandioso e Emocionante Fecho do Mercado de Transferências como se fosse um dia num parque de desportos radicais.

“E parece que o Sporting acaba de contratar um médio-ala do Paraguai, um jogador com 22 anos, rápido, proveniente de um clube de amigos da Argentina que só joga uma vez por mês; um jogador conhecedor da obra de Daddy Yankee e de outros ‘regatões’ famosos; apreciador de peixe grelhado e polivalente em jogos de cartas.”

Isto, meus amigos, é tão bom que nem devia dar a uma hora daquelas. Devia dar às duas da manhã, porque tem o seu quê de pornografia. É tão bom saber que, apesar dos problemas menores, quase insignificantes, que o país e o Mundo atravessam, como a degradação do meio ambiente e a emergência de proto-ditadores e fascistas em cada esquina, há coisas boas a acontecer, como um clube de futebol contratar um jogador.

Haja esperança!

Até porque temos que esperar um longo ano até podermos viver intensamente o próximo dia 31 de Agosto.

sábado, 25 de agosto de 2018

Pragas do Facebook

Anda o Facebook preocupado com as falsas notícias e não faz nada relativamente a pessoas que tiram selfies só à cabeça. Não estás a entender? Eu explico: há pessoas que vão a locais, ficam muito contentes por estarem nesses locais, dão dois pulinhos de rejubilo e decidem tirar uma selfie. Até aqui, tudo normal.

O problema está na escala: estas pessoas, por narcisismo, ou só por estupidez, tiram selfies com o telemóvel encostado à cara. Resultado: temos uma foto de uma cabeça em ponto grande. Eu chamo-lhe “híper-selfie”. É apostar as fichas todas na cabeça.

“Olha o Taj Mahal lá atras! Ou uma torre de um castelo de um parque de diversões. Não sei, só vejo uma cabeça…” É isto: supostamente, há uma cena lá atrás. Mas só vemos uma cabeça.

Grande.

“Olha a Torre Eiffel lá atrás! Ou uma antena de uma estação de rádio. Não sei, só vejo uma cabeça…” Desiste de interpretar. É só uma cabeça, mesmo.

Grande.

Não há um grande problema com isto. Há três: não dá para ver a paisagem; se a pessoa for feia, o teu feed do Facebook fica a parecer aqueles cartazes a dizer “Procura-se”; se a pessoa for bonita, acabarás por te cansar da beleza.

Outro mal que prolifera no Facebook: pessoas que comunicam através de indirectas. Supostamente, têm um problema com alguém mas, em vez de lho dizer directamente, publicam aquelas frases mesquinhas, do género “Se você fala mal de mim, é porque não merece meu carinho”, ou “A você, que fala mal de mim, digo: veja meu sorriso enquanto o ignoro”, ou ainda “Não enxergo quem me quer mal: estou acima de todos eles”.

Este comportamento não tem um grande problema. Tem dois: pode calhar que quem lhe queira mal não “enxergue” as suas publicações, por ter accionado essa opção; nós, que não temos nada a ver com o assunto, temos que ter esses posts no nosso feed. Quiçá, intercalados com cabeças gigantes.

Mais coisas: pessoas que se vangloriam de feitos não passíveis de vanglória. Um exemplo: pés na praia. É fixe ir à praia, e tudo, mas há milhares de pessoas na praia, todos os dias. A vaidade com que pessoas publicam fotografias de pés na praia não é proporcional ao grau de dificuldade de ir à praia. Toda a gente consegue ir à praia. Fotografar pés não tem um grande problema. Tem dois: a praia é bonita, os pés nem por isso; há povo que desdenha o corte de unhas.

Acontece o mesmo com bilhetes para concertos. Uma coisa é ir a um concerto e até tirar um fotografia gira. Compro. Outra, completamente diferente, é fotografar um bilhete. Eu só aceito que alguém fotografe um bilhete se, quando for ao talho, fotografar a senha. Em termos de mérito para o portador, a diferença entre um bilhete para um concerto e a senha do talho é o preço: o bilhete paga-se e a senha do talho é de borla. Ainda assim, o preço do bilhete para o concerto não faz de ti uma pessoa capaz de comprar um jacto privado: faz de ti alguém que, caso fotografe esse bilhete, será, só, fatela.

Só mais um mal. Prometo. Este é mais raro, mais ainda me aparece: perfis de Facebook de casal. O perfil de casal levanta questões filosóficas complexas. Vamos imaginar um senhor de Braga que casa com uma senhora de Guimarães. Porque eles se amam muito, ou porque acham que gastam mais internet se tiverem dois perfis, fazem um perfil conjunto. Fofo, adorável.

Agora imaginem que surge uma publicação de apoio ao Sporting de Braga. Não podem pôr “gosto”, porque metade do perfil conjunto é a favor, metade é contra. Vamos imaginar que ele é de esquerda e ela é de direita. Querem fazer uma publicação de teor político. Não dá, cada corrente de pensamento só têm 50% dos deputados daquele perfil conjunto. Surge um debate sobre a despenalização da eutanásia: ele é a favor, ela é contra. Mais uma vez, a assembleia fica num empate. Surge um pedido de amizade: é uma amiga dela, que ele não conhece. Porém, a amiga é gira. Ele torna-se liberal e conclui que, se alguém está no Facebook, é porque não se preocupa muito com a privacidade. Pedido aceite.

Agora imaginem a bomba atómica: um perfil conjunto publica uma “híper-selfie”, com um bilhete para um concerto e com a legenda “Ignoro você, que me quer mal, porque estou ocupado a ser feliz”.

O Facebook entraria em colapso.

sábado, 18 de agosto de 2018

A escola e os cachaços


Quando andamos na escola, não sabemos o que é mais fascinante: se aprender que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa, se saber aplicar correctamente um cachaço a um colega (no Sul, dizem “calduço”). Isto porque, se resolver um triângulo rectângulo dá jeito, nas mais diversas situações da vida, assim também o dá poder acalmar um colega que se está a armar em burro.

Ou então dar-lhe um valente cachaço só porque nos apeteceu. Por vezes, acontece, e é quando sabe melhor.

Depois vem a Biologia e ficamos a conhecer a mitocôndria. A mitocôndria é uma coisa que existe nas células e que dá bué jeito ter. Mas torna-se complicado saber se damos mais valor à mitocôndria ou à possibilidade de correr depressa. Porque mitocôndrias toda a gente tem. Mas correr depressa dá imenso jeito, não só, para jogar à bola, como para fugir de alguém que nos quer bater sem qualquer razão aparente.

Ou então porque lhe demos um cachaço só porque nos apeteceu.

Sabermos que no dia 1 de Dezembro de 1640 restauramos a nossa independência e corremos os espanhóis daqui para fora é bom. Enche o ego. Mas saber que o Fernando conseguiu recuperar o telemóvel que o Luís lhe tinha gamado, durante a aula de Educação Física, também aquece o coração, porque tudo acabou bem.

E porque o Luís vai levar cachaçada velha, com motivo.

O Inglês também era das disciplinas mais úteis. A língua universal do Mundo era-nos ensinada desde bem cedo. À semelhança de qualquer aprendiz de uma nova língua, queríamos logo saber como se diziam palavrões, como insultávamos as pessoas.

Sobretudo porque, caso nos chamassem algo de que não gostássemos, havia motivo válido para cachaçada.

Agora façamos de conta que eu sou um velhinho. No nosso tempo, havia aulas de I.T.I.: Introdução às Tecnologias de Informação. Só o nome arrepia: nós tínhamos que ser apresentados às tecnologias de informação, como se nunca tivéssemos, sequer, visto essa nova invenção que era o automóvel. Ou ouvido as notícias pela telefonia. E todo aquele maravilhoso mundo tecnológico era desvendado à nossa frente, com espanto. Parecia que nos tinham levado para um filme do Steven Spielberg.

Até porque, às vezes, o Pedro comportava-se como um dinossauro.

Hoje, a introdução às tecnologias de informação surge, não quando os jovens têm 15 anos, mas quando têm 6. E servem para eles ensinarem os avós a criar uma conta de e-mail e a publicar uma fotografia no Facebook.

E, mais tarde, a dar cachaços, só que no Fortnite.

Em Educação Física, aprendíamos a jogar basquetebol, andebol, voleibol, aprendíamos algumas modalidades de atletismo, aprendíamos badminton, mas até hoje nunca percebi muito bem se isso é um desporto ou uma coisa que os professores inventaram, só para gozar com as pessoas. E tudo isso, tirando o badminton, era infinitamente útil, para que tivéssemos opções para brincar na rua.

Só não nos ensinavam a dar cachaços, porque isso nasce connosco.

domingo, 12 de agosto de 2018

Sugerir restaurantes é perigoso

Há um momento na vida em que a nossa reputação é colocada à prova como em nenhum outro. Quando casamos? Por favor… Quando falamos em público? A Cristina Ferreira fala em público há anos e há quem lhe atribua grande reputação. Quando apresentamos uma tese de doutoramento? Pfff, claro que não, ninguém lê teses de doutoramento.

Nem o júri da prova.

O momento de maior tensão da nossa existência ocorre quando levamos amigos a comer a um restaurante sugerido por nós. Aí sim, anos e anos de amizade cimentada em bons momentos, e em maus também, pode ser colocada em causa devido a um arroz mal confeccionado ou a uma carne pouco saborosa.

Andam as universidades preocupadas em ensinar Física Quântica, o Gustavo Santos em ensinar como nos amarmos a nós mesmos, e ninguém nos ensina como gerir as expectativas dos nossos amigos.

Começa logo pela apresentação ou, como se diz agora, o “pitch”. Temos pouco tempo da atenção dos nossos amigos para lhes explicarmos quão bom é um arroz de pato ou uma comida tailandesa. Dependendo da nossa apresentação do produto, ele pode ficar muito expectante, ou apenas assim-assim, e disso dependerá, não só, a nossa amizade, como, em alguns casos, a nossa integridade física. Se ele ficar muito expectante, é bom que a comida provoque um prazer quase sexual. Se ele ficar só assim-assim, no fim, acaba tudo bem.

Outro problema: os rankings. As pessoas vivem obcecadas com o melhor. Hoje, se algo não é o melhor, nunca deveria ter existido. A única comida que nunca deveria ter existido foi aquela que nos afectou de tal maneira o funcionamento intestinal que passámos o dia com moscas a rondar-nos. Foi aquela que nos pôs a regurgitar como se fôssemos a fonte onde nasce a água do Fastio.

Pronto, quanto a este ponto de danos causados pela comida, acho que já me fiz entender.

Com excepção dessas comidas, qual é a necessidade de fazer um ranking? Se encontramos uma francesinha boa, para quê viver na ânsia de procurar a melhor, com a mesma determinação com que o Indiana Jones procurava artefactos antigos? Ainda por cima, na ânsia dessa procura, podemos, tal como alguns inimigos do Indiana Jones, acabar decapitados, naqueles restaurantes que estão tão na moda que o pessoal vai armado para arranjar mesa.

Outra questão importante é falar sobre as divergências, tal como se impõe noutras situações. Discutiste com um amigo: deves tentar esclarecer o que aconteceu, o mais depressa possível. Desiludiste alguém que contava contigo: deves ser capaz de pedir desculpa. A tua namorada apanhou-te com seis strippers, um saco de cocaína e um dos cortinados cheio de chantili: deves tentar esclarecer. Não, estava a brincar, aqui deves arranjar um guarda-costas.

O mesmo se passa com a comida. Um amigo sugeriu-te um restaurante e foste lá. A comida parecia ter sido confeccionada por um chimpanzé bêbado, 40 anos antes da tua visita. Deves explicar, gentilmente, que a comida não estava no seu melhor, mas sem dizeres ao teu amigo que ele é uma besta. Deves tentar compreender que o palato dele tolera certas coisas e o teu não. E ninguém escolhe o palato que tem.

O mesmo acontece com os amigos: pensamos que os escolhemos, mas ficamos com aqueles que nos calham em sorte.

Ou em azar.

sábado, 4 de agosto de 2018

Como é bom ir à praia


Ah, como é bom ir à praia. O sol a aquecer-nos a pele, a brisa do mar a refrescá-la. E ter alguém que não conhecemos de lado nenhum a meio metro da nossa toalha. No fundo, isso promove o contacto entre diferentes culturas.

Isso, ou o c@*=%$# do reggaetton a tocar toda a tarde.

Ah, como é bonito ter uma coluna Bluetooth. Podemos procurar o sossego de uma floresta e deitar-nos a ouvir Bach com boa qualidade de som.

Isso, ou o Chino y Nacho a cantar toda a tarde. Ao nosso lado. Na praia. Corrijo: Chino y Nacho ft. Daddy Yankee. Os nomes destes tipos parecem saídos de uma aula de Álgebra.

Ah, como é bom poder praticar desporto na praia. Poder fazer uns remates ao estilo do Cristiano Ronaldo, enquanto ouvimos a brisa do mar.

Isso, ou fazer remates ao estilo do avançado suplente do Trafulhense Futebol Clube e mandar a bola para a toalha de alguém. E enchê-la de areia.

Ah, como é bom a areia a esfoliar-nos a pele, a torná-la mais suave, mais límpida.

Isso, ou aquele grão de areia que nunca sai do peito do pé e fica ali, a rir-se para nós o tempo todo. “Eu não saio daqui, só quando me apetecer”. A rir-se para nós. Quase lhe vemos os dentes. Que são de ouro, porque o sorriso do grão de areia que não sai é sempre brilhante. Para nos irritar mais.

Ah, como é bom poder andar no mar até a água nos chegar à cintura. E depois fazer um xixi, enquanto se olha o horizonte e se pensa que o Mundo é nosso.

Isso, ou aquela pessoa que está no sentido da corrente e mergulha. E bebe água sem querer. E xixi. Mas, como a água é salgada, nem nota.

Ah, como é bom discutir o Mundo, tentar chocar as nossas opiniões contra outras e produzir ideias novas e belas.

Isso, ou o senhor que está ali a dizer, bem alto, que “o problema da Venezuela é que a África é uma confusão”.

Ah, como é bom ver pessoas sensuais na praia.

Isso, ou aquela senhora gorda que está a comer um corneto e já deixou cair gelado na toalha, na revista e nas costas do marido.

Na verdade, eu não vou muito à praia.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

A brigada da granola


Estás prestes a comer um hambúrguer. Um a sério, feito de carne de um qualquer bovino minimamente saudável, não de um alien aprisionado num contentor, de onde uma multinacional retira as suas doses individuais de “hambúrguer”. Com pão feito, prepara-te, senta-te, de pão (!!!), não de um composto químico que se destina a dois possíveis usos: fazer “pão” ou vedante para cozinhas. Tudo acompanhado de batatas fritas que não têm tamanha quantidade de sal que te obrigue a demolhá-las três dias antes de as comeres. Estou aqui com coisas: vais comer um hambúrguer artesanal e não de uma qualquer cadeia multinacional.

O teu cérebro já iniciou os preparativos. Sim, porque comer começa antes de comer. O teu cérebro começa a antecipar cenários. É como no sexo: a mente é a primeira a avançar. Quando sentes aquele aperto no estômago, antes de comer algo de que gostas, não sentes um aperto no estômago: sentes o teu estômago a ter uma erecção.

Resumindo, antecipas um cenário de grande prazer. Porém, quando chega o teu hambúrguer, reparas que tens, na tua mesa, um amigo que é um agente da brigada da granola. Se não sabes do que estou a falar, não sei onde tens andado nos últimos dois, três anos.

A brigada da granola é uma força especial de intervenção social. Os seus agentes são recrutados num processo rigoroso, até violento, de entre a nata dos praticantes de ginásio e do Instagram. São pessoas tão saudáveis que não vendem saúde: compram-na, em bidões de cenas estranhas, muito parecidas com as que compras para alimentar o teu periquito.

Esta força de intervenção tem como objectivo eliminar o consumo de comida não saudável, através de acções de sensibilização. Aqui, a palavra “sensibilização” é para ser sublinhada: os agentes da brigada da granola chateiam-te tanto, quando comes entulho, que acabas a chorar, por sentires que a vida não faz sentido.

Na primeira fase de gestação, o agente é só uma pessoa que tomou um rumo saudável na sua vida. Passados dois meses, é um fundamentalista disposto a abater-te, se lhe ofereceres uma batata frita.

Retomemos. Vais dar a primeira dentada no teu hambúrguer e o agente diz “Vais enfardar essas calorias todas?”. Importa explicar que os agentes da brigada da granola contam calorias tão bem quanto um velhinho, numa tasca, conta trunfos a jogar à sueca.

Nesse momento, a tua dentada muda de cenário. Acabaste de trincar uma bota velha (porque se fosse uma bota nova, até nem seria assim tão mau). O cheirinho do hambúrguer passou a ser cheirinho a naftalina (o que nem é mau, porque afastas as traças da tua comida) e um pássaro fez cocó no teu ombro.

Aqui, importa referir que o cocó do pássaro foi obra do acaso, não tendo qualquer relação com o agente da brigada da granola.

Tens duas hipóteses de comer sossegado, na companhia de um agente desta poderosa força de intervenção: ou pedes uma salada ou matas o agente. Aqui, é óbvio o caminho a seguir: se foste ali comer um hambúrguer, não vais pedir uma salada.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Tudo melhora com a preguiça


Aposto que os nossos aparelhos emitem umas ondas hipnotizadoras que o nosso cérebro capta, sem que tenhamos consciência disso. Aposto que isto está num site qualquer manhoso. Daqueles cujos autores, de cada vez que publicam uma “notícia”, dizem “Se calhar, estamos a forçar um bocado, é desta que ninguém vai acreditar”.

Estas ondas reduzem a nossa capacidade crítica, em determinados momentos. Por exemplo: quando temos uma coisa para fazer e ficamos só um bocadinho a retardar o processo, a preguiça deixa-nos mais expostos às ondas e estas tornam tudo muito mais interessante. Tudo se torna uma espécie de revelação, em directo, do sentido da vida.

Um documentário sobre um tipo que colecciona paus de gelado. Um tipo que colecciona paus de gelado estaria votado ao ostracismo e, posteriormente, ao esquecimento. Mas se tivermos algo para fazer, seja estudar ou arrumar a casa, um documentário sobre aquele indivíduo transforma-se numa espécie de mitologia e a história da sua vida passa a ser um exemplo para todos nós.

No processo de retardamento da tarefa agendada, ficamos tão embrenhados na sua história que consideramos, por breves instantes, a possibilidade de começarmos a coleccionar paus de gelado, só para homenageá-lo. Se estivermos no Inverno, equacionamos, inclusivamente, viajar para um país em que seja Verão, só para termos mais gelados à escolha. Com isto, teremos duas vantagens: não só passeamos um bocado, como retardamos ainda mais a tarefa agendada.

Documentários sobre animais são sempre interessantes. Mas, se tivermos algo para fazer, estes documentários passam a ser um filme épico. Pegamos nas pipocas e entramos na história. Eu torço sempre pelas presas, nunca pelos predadores. Um peixinho está no fundo do mar. Os peixinhos no fundo do mar têm sempre aquele ar bué de peixinho, felizes e inocentes. E há um polvo escondido num penedo. Eu começo aos berros “Peixinho, foge, peixinho, está ali um polvo!”. Tudo enquando como pipocas sofregamente.

Nunca resulta. O peixinho continua ali a pairar, bué de peixinho, e o polvo, esse crápula, sai do meio dos penedos e engole o peixinho de uma só vez.

Fico devastado.

Gostava de realizar um documentário em que o peixinho, neste momento, faria dois ou três golpes ao estilo do Steven Seagal e poria o polvo na ordem.

Fazer scroll infinito no Facebook também é muito mais divertido quando temos algo para fazer. Acho que, secretamente, estamos a tentar ir ao fim da Internet. Ou ao princípio do Facebook. “Vou fazer aqui um scroll tão grande que vou descobrir o primeiro post do Facebook”. Aposto que o primeiro post do Facebook é algo do Mark Zuckerberg, tipo “Está aí alguém?”.

Mesmo eu, antes desta crónica, fiz scroll infinito, porque não me apetecia escrever. Destaco uma notícia do “New York Post” sobre vegans que estão a ameaçar de morte talhantes e criadores de gado, no Reino Unido, ao mesmo tempo que vandalizam talhos e quintas.

Noutra altura, eu diria “Que estupidez!”. Mas, como estava num momento de tédio, as ondas deram outra capacidade de percepção ao meu cérebro e fizeram-me perceber que nada faz mais sentido do que tentar travar a morte de animais ameaçando de morte os animais que matam animais.

Vou mais longe: ser vegan é um ponto de passagem entre ser uma pessoa que come a carne que o talhante vende e ser uma pessoa que come a carne do próprio talhante.

Estimado leitor, agora que já perdeu cinco minutos a enfardar umas baboseiras, vá trabalhar.