quarta-feira, 23 de maio de 2018

Comer em equipa

Diz a minha experiência de ir a casamentos que uma correcta celebração do matrimónio não se consegue fazer sem ingerir doses sobre-humanas de comida. É como se houvesse uma competição não oficial para determinar quem é mais amigo dos noivos, só que, em vez de se determinar o vencedor através do recurso a provas de amizade, determina-se através do recurso a provas ininterruptas de camarão, panados, bacalhau e tornedó.

Só é festa a partir do segundo prato: primeiro prato já nós comemos todos os dias. “A Luísa e o Fernando conheceram-se, um dia, e foram construindo um amor alicerçado na compreensão e na partilha, tendo, por isso, decidido unir os seus destinos. Assim sendo, depois deste bacalhau com broa, vamos enfardar tornedó (só duas postinhas) para celebrar o amor!”

A única forma de aproveitar verdadeiramente os prazeres gastronómicos da festa é com trabalho de equipa. Um pouco antes de terminar a cerimónia na igreja, um dos membros da equipa, que aqui será chamado pelo nome de código de “Falcão Um”, irá deslocar-se à quinta, onde se irá mascarar de empregado de mesa, experimentar as entradas e fazer um mapa das mesas, com destaques para os petiscos prioritários e para aqueles que se deverão evitar, não esquecendo os melhores pontos para pousar pratos e copos.

Com esta antecipação, os restantes membros da equipa irão receber a informação detalhada, para que saibam, assim que for declarado aberto o processo de ingestão compulsiva, quais as mesas aonde se devem dirigir primeiramente.

“Falcão Um para Esquadrão, Falcão Um para Esquadrão, panados e chouriça assada prioritários. Marisco em bom estado, podem avançar. Rissóis razoáveis, mas só em último caso. Evitar pataniscas, têm muita batata, pouco bacalhau.”

Com isto, evita-se a chatice de andar a experimentar entradas para se saber o que se deve comer. É que experimentar sem ninguém por perto nem oferece problemas, mas provar entradas com os primos da noiva e os tipos que jogam à bola com o noivo cheios de fome é quase tão arriscado como estar a procurar mantimentos no meio de uma invasão zombie.

Como em todas as equipas, haverá uma mente que coordenará todos os procedimentos. Idealmente, essa pessoa deverá não ser convidada, para que as suas decisões não sejam toldadas pela ingestão de álcool em excesso. Deverá ser alguém com conhecimentos na área da nutrição, mas tendo em conta a quantidade de “bloggers” e “instagrammers” especializados no tema, é seguro afirmar que há mais pessoas a perceber de nutrição do que do código da estrada.

Esse líder da equipa, aqui chamado de “Professor” (em homenagem a todos os que me chateiam a cabeça por eu não ter visto “La Casa de Papel”), vai fazendo a gestão alimentar de cada um. Com recurso àqueles relógios ou pulseiras super-modernos que dizem quantas vezes o nosso coração bate por minuto, e com medidores de açúcar e de álcool no sangue, o “Professor” dirá o que cada um deve comer.

“Falcão seis, já chega de puré de maçã, estás a comprometer a missão. Falcão quatro, estou a receber os teus dados, nem mais um copo de vinho na próxima meia hora, repito, nem mais um copo de vinho na próxima meia hora. Estás a começar a babar-te. Assim não chegas ao baile. Falcão cinco, estás muito bem, se quiseres mais uma posta de bacalhau, podes avançar.”

Também haveria um plano de contingência, para o caso de alguém desrespeitar a estratégia. “Esquadrão, o Falcão Nove acaba de cair, repito, o Falcão Nove acaba de cair. Está a vomitar num vaso. É favor recolhê-lo para a Zona de Extracção, já vai o Carro-Vassoura a caminho.”

Quando a equipa estivesse em risco de retirar, por falta de comida, não faltariam avisos úteis. “Falcão Um chama Esquadrão, Falcão Um chama Esquadrão. Não abandonem já, falta a ceia. Vai haver caldo verde e mini-pregos. Já provei ambos, são apostas seguras.”

Aqueles que ainda estivessem contactáveis, ou que ainda se lembrassem de quem era o Falcão Um, teriam uma última oportunidade para demonstrar amizade.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Se os romanos tivessem internet


Como seria se houvesse internet no tempo dos romanos? Haveria logo uma vantagem enorme: hoje, toda a gente quer tirar uma selfie no Coliseu em ruínas; naquele tempo, daria para fotografá-lo inteiro. Aliás, daria para tirar uma selfie enquanto alguém morria na arena. O que, tanto para o padrão de civilidade da época, como para o padrão Correio da Manhã, é perfeitamente normal. É uma Terça-feira.

Para além disso, no Senado, haveria senadores a mandar postas de pescada no Twitter. “Isto de invadir a Gália vai correr mal” ou “O Cipius Comicus é um humorista de m*rda. Aquela rábula sobre mim não tem piada nenhuma”. O que, para o padrão de civilidade da época, ou para o padrão Trump, é perfeitamente normal. É uma Quinta-feira.

Um general romano chegaria a uma província por conquistar e poderia ter o seguinte diálogo com o representante local:

– Bom dia. Venho conquistar este território.

– Mas ninguém avisou.

– Eu criei um evento no Facebook. Procure aí por “Invasão da Lusitania”.

– Ei, pois é. Vou pôr “Talvez”, não sei se tenho coisas marcadas para hoje.

– Oh amigo, desculpe lá, mas eu enviei um e-mail e tudo.

– Para onde mandou?

– Para lusitania@gmail.com.

– Ei, já não é esse. Agora é geral@lusitania.pt.

– Desculpe lá, mas tenho aqui a tropa toda. Mais de dez mil homens. Não vou para trás de mãos a abanar, agora fazemos a conquista.

– Posso, pelo menos, convocar a malta para a batalha?

– Força, mas só lhe dou até ao fim da tarde.

Entretanto, no grupo de Wattsapp da Lusitania, apareceria a mensagem “Malta, estão aqui os romanos para nos conquistar. Dá para aparecer?”. Suceder-se-iam respostas tais como “Tem que ser hoje?” ou “Hoje tenho jogo de gladiadores, se me magoar não vou poder ir. É muita carga, também preciso de descansar” ou “Não vai dar, esta semana saí todos os dias, a minha mulher já me anda a f*der a cabeça”.

Entretanto, os soldados romanos aproveitariam para procurar no Tripadvisor sítios bons para comer. O mais bem pontuado seria a Taberna Lusitana, com 4.8 pontos, em 2500 avaliações. Surgiriam fotografias de comida, no Instagram, com a hashtag #conquista.

Ao fim da tarde, estariam reunidos os exércitos e apareceriam publicações no Facebook, por parte de soldados de ambas as partes, a dizer “A sentir-se confiante”. A batalha seria sangrenta, mas transmitida num directo do Facebook, os romanos venceriam e começariam a enviar e-mails à Google, para que o Google Maps fosse actualizado: o território passaria a chamar-se “Hispânia” e as ruas também mudariam de nome.

No fim do dia, a Taberna Lusitana mudaria o nome para Taberna Hispânica, mas manteria a pontuação no Tripadvisor.

O Imperador colocaria no Twitter a seguinte mensagem: “Hoje, os lusitanos sentiram a nossa fúria. Eu tinha avisado”. Milhares fariam “Gosto”.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Assaltar para arrendar


O aumento significativo do custo do arrendamento em Portugal, sobretudo nos grandes centros urbanos, e a quantidade de pessoas que viram “La Casa de Papel”, são dois dados independentes, para um observador desatento. Para mim, que acompanho a actualidade com o mesmo interesse com que uma velhinha adorável acompanha os programas da Fátima Lopes, uma coisa é directamente dependente da outra.

Toda a gente diz que vê “La Casa de Papel” porque a história é viciante, porque o plano do assalto é genial, porque não consegue viver sem ouvir o “Bella Ciao” ou porque dois amigos viciados na série ameaçaram entrar no campo da agressão a quem não começasse a ver também. Tudo treta. A malta anda é a estudar para fazer um grande assalto à Casa da Moeda. Uma vez realizado o assalto, os seus executantes não vão comprar ferraris. Nem um avião. Nem uma ilha no Pacífico.

Vão guardar o dinheiro para pagar rendas.

Num futuro não muito distante, algum recém-milionário vai ligar para um potencial arrendador e ter um diálogo semelhante a este:

– Boa tarde. Gostaria de saber o preço daquele apartamento de 16m² que fica numa cave e que não tem casa-de-banho.

– Por mês, são dez mil e quinhentos euros, dois frangos do campo e um dia de trabalho escravo.

– Excelente. Posso trocar o dia de trabalho escravo por mais dois mil euros de renda?

– Negócio fechado. Eu com esses dois mil euros contrato dois escravos e ainda sobra dinheiro.

– Pronto. Pago já 240 meses, só para garantir vaga.

Não digo, com isto, que ter uma ilha no Pacífico não seja uma ideia agradável. Mas poder ter uma casa não é menos agradável, e da forma que está o mercado imobiliário, assaltar a Casa da Moeda nem parece assim tão arriscado, comparado com dormir na rua.

Para além de permitir que sobre algum dinheiro para comer, depois de pagar a renda, assaltar um banco pode ajudar a desenvolver outras competências que serão muito úteis, no futuro, tais como a ocultação de identidade.

Imaginemos que um recém-milionário deseja residir no centro da cidade. Nesse caso, ou anda distraído ou é palerma, uma vez que toda a gente sabe que o centro da cidade é para turistas bué modernos que usam o Airbnb. De forma a contornar este obstáculo, o recém-milionário pode mudar semanalmente de identidade e alugar sempre a mesma casa.

Se o senhorio começar a desconfiar do facto de os sucessivos arrendatários serem muito parecidos, o recém-milionário pode utilizar a desculpa de que são todos primos e que vão passando a palavra entre eles, acerca do conforto das instalações e sobre o facto de até terem espaço suficiente para uma pessoa se deitar.

Claro que nem todos poderão assaltar a Casa da Moeda e, nesse caso, alternativas terão que ser estudadas. Uma delas é aderir à escravatura. Em vez de ter que trabalhar para terceiros, de forma a receber dinheiro para pagar uma renda exorbitante, o arrendatário vende o seu trabalho (e a própria existência) ao arrendador. Tudo bem que deixará de ter vida e vontade própria, mas nem tudo é mau: terá um caixote de 2x2 metros, confortavelmente instalado numa garagem, onde poderá dormir quentinho.

Outra hipótese é criarmos um programa de televisão, em sinal codificado, no qual as pessoas entram num labirinto e se matam por um T3 com varanda. Depois, vendemos os direitos de transmissão para apoiar a habitação social.

Não faltará muito tempo para que nos apareça um político a dizer que é preciso mudar o paradigma: ter dinheiro para uma casa é coisa do passado. E que até há vantagens nisso: quanto maior o número de pessoas a viver na rua, mais seguras ficam as ruas.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Os meteorologistas mandam em nós

Os meteorologistas são o equivalente, na vida adulta, dos nossos pais quando éramos pequenos. “Estás a ver aquele passeio que ias dar no Sábado à tarde? Esquece, vão estar a chover pequenos rebos de gelo do tamanho de cerejas”; “Estás a ver aquela saída de bicicleta que tinhas planeado para Domingo de manhã? Esquece, só se pregares a bicicleta ao chão, porque vão estar vacas a voar com o vento”.

É isto que os meteorologistas fazem, tal como os nossos pais já o faziam, na nossa infância. Com a agravante de que os meteorologistas são pagos para nos dar más notícias, enquanto que os nossos pais ainda tinham que aguentar connosco em casa, de birra.

Apesar deste conflito sempre latente, o segredo da nossa boa relação com os meteorologistas está em fingir surpresa. É como quando nos contam um segredo sobre uma pessoa e essa pessoa acaba por nos revelar esse mesmo segredo: temos que fingir surpresa, para não estragar tudo. Com os meteorologistas, é o mesmo.

– Vai haver chuvadas de meter medo.

– A sério? No Inverno? Não pode ser!

– Vai estar muito calor.

– A sério? Em Julho? Não pode ser!

Os congressos de meteorologistas são bastante emocionantes. Há sempre um senhor que sobe ao palco e diz “Estimados colegas, estou em condições de afirmar, depois de um estudo de uma vida, que, o Verão é, tendencialmente, quente, e o Inverno é, tendencialmente, frio”. Há um silêncio ensurdecedor na sala. Está a acontecer Ciência, naquele momento. Depois, alguém diz “Espera, acho que a minha avó já me dizia isso quando eu era pequeno” e alguém diz “Isso é porque a tua avó era uma meteorologista e não o sabia”.

No fundo, os dotes de meteorologista são como as capacidades dos Jedi no “Star Wars”: nascem connosco. A habilidade de olhar para um céu nublado e dizer “vem aí uma tromba de água”, ou enfrentar um céu estrelado e dizer “amanhã vai estar um rico dia de sol”, é como o jeito para pintar. Ou se tem ou não se tem.

Depois, é só estudar bastante para perceber o anticiclone dos Açores e as frentes frias, saber distinguir o vento a soprar fraco do vento a soprar moderado a forte e saber onde fica Noroeste ou Sudeste, entre outros pontos cardeais.

Por estes dias, temos andado a saltar de tempestade em tempestade. Parecemos um pugilista que leva um valente sopapo, logo depois de se levantar do tapete. Já agora, porque é que chamam tapete ao chão do ringue de boxe? Não há ali tapete nenhum. E devia haver, para que os queixos caíssem em superfícies mais fofinhas. E devia haver um candeeiro e um sofá ao canto, para que um desportista pudesse levar sopapos num ambiente mais acolhedor.

Voltemos às tempestades. Neste jogo do boxe de saltar de tempestade em tempestade, os meteorologistas são o treinador, a gritar no canto do ringue. “Desvia-te! Levanta os braços! Ataca pela direita! Ataca pela direita!”. O que não se percebe muito bem, porque levantar os braços e desviar não são gestos úteis contra bolas de granizo do tamanho de cerejas e ventos capazes de arrancar pinheiros, sobreiros e aquele cacto pequenino que está num vaso na varanda. Uma pena, porque o pinheiro ou o sobreiro, pronto, não eram de ninguém, mas o cacto tinha sido oferecido pela tia Laurinda e tinha valor sentimental.

E com a nossa falta de juízo, o planeta está a aquecer e o clima a ficar maluco. Um dia, pior do que estarmos prestes a extinguir-nos, algo completamente irrelevante, enfrentaremos a tragédia de teremos congressos de meteorologistas que não saberão que tempo estará em Julho.

A noite mais longa dos trolls

Declaro-me solidário com os trolls das redes sociais e garanto ter já criado uma pequena força de intervenção para prestar auxílio a quem está a dar os primeiros sinais de exaustão, depois de ter destilado ódio nas redes sociais, durante mais de três dias, sem descanso.

O passado dia 4 foi dos mais cansativos, em muito tempo. Não para mim, não para ti, talvez, mas para os trolls das redes sociais. Foi um Domingo com um nível de exigência semelhante ao de um treino de uma tropa especial, para os nossos amados internautas responsáveis por nobres tarefas como enxovalhar pessoas em caixas de comentários ou partilhar “fake news” de páginas cujo nome deveria ser suficiente para que ninguém as lesse.

Tudo tem o seu contexto. Vínhamos de um fim-de-semana futebolístico que começara na Sexta-feira, com um Porto-Sporting. Por outras palavras, começou cedo a tarefa árdua, ainda mais intensa ao fim-de-semana, de partilhar conteúdos de gosto ou veracidade duvidosos que possam enxovalhar os gostos clubistas de outras pessoas, sejam eles quais forem. O futebolista cansa-se a jogar futebol, o troll cansa-se a insultar os adeptos adversários. É tudo desporto, portanto.

Mas isto é normal, dia após dia, semana após semana. O problema é que, depois do jantar de Domingo, surge o Festival da Canção. Quando os trolls das redes sociais se preparavam para enterrar os machados de guerra, surgem não sei quantas canções, interpretadas por não sei quantas pessoas, e toca a criticar tudo e todos. “Isto é tudo feito, a RTP é um clube de amigos”, “De que se vestiu aquela gaja?”, “Este gajo é um palhaço”, ou “Que p*** de música é esta? Vamos ficar em último”, são alguns dos pequenos pedaços de paraíso literário que os trolls derramam em caixas de comentários, sob a forma de uma espécie de baba viscosa.

No fim, ganhe quem ganhar, é hora da turba se reunir, tal qual horda de zombies, e desancar em quem ganhou. Terminada esta tarefa, chega a hora dos trolls irem fazer ó-ó, certo?

Errado. Havia noite de Óscares. O troll pousa a batuta de maestro que comenta questões musicais e, em vez do pijaminha, veste o seu fato de gala e pega no seu caderninho de crítico de cinema. Tudo muito bonito, mas o troll não tira a camisola de imbecil "futeboleiro" e acaba por invadir as caixas de comentários das redes sociais com críticas aos filmes que ganham, acompanhadas por elogios aos filmes que deveriam ter ganho, inclusivamente, o “Velocidade Furiosa 42” e o “Vingadores: Guerra de Cenas e o Hulk”.

Sobre o movimento “Me Too”, os trolls pensam tratar-se de uma hashtag fixe para colocar no Instagram, a acompanhar uma foto no ginásio.

Pelo meio, continua a morrer gente na Síria e a Itália está em pantanas. Os poucos trolls que sabem que a Síria e a Itália são países consideram que a culpa é do sistema. Talvez seja dos poucos momentos em que têm razão. Só não sabem que o sistema somos nós todos.

Troll, se me estás a ler, enxovalha este texto que eu farei com que os primeiros socorros cheguem até ti.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Todos os meses, Carnaval

O meu Carnaval preferido foi um em que me mascarei de Batman. A minha mãe, grande especialista na costura, confeccionou-me um fato, de raiz. Ficou espectacular em 98%: as orelhas do capuz do Cavaleiro Negro ficam sempre direitinhas, as do meu fato caíam. Em 2% do meu fato, eu parecia um coelhinho. Ou seja, 2% do fato de um vigilante que aterroriza os criminosos de Gotham City parecia as orelhas de um animal fofinho.

Tirando isso, foi espectacular.

Analisando friamente esta festa, estou em condições de afirmar que o mal do Carnaval é ser no Inverno. Ainda por cima, numa Terça-feira. Está frio e, muitas vezes, chove. Calha à semana, uma pessoa pode ter coisas combinadas. E nem toda a gente tem seis dias de tolerância de ponto, a começar na Quarta-feira anterior.

Para mim, o Carnaval devia ser dividido: pegava-se nas 24 horas e dividia-se por doze períodos de duas horas. A lei passaria a conceder-nos o direito de andarmos mascarados duas horas em cada mês.

Isto poderia fazer com que, certa vez, alguém fosse trabalhar mascarado.

– Fernando, tenho aqui um desafio para si. – Diria a directora.

– Vamos a isso. – Responderia o Fernando, mascarado de palhaço.

– Pensei em si para dirigir todo o departamento de produção.

– Eh pá, que orgulho. – Responderia o Fernando, enquanto tocava uma buzinha que traria acoplada ao ombro.

– A direcção considera que a sua respeitabilidade será um trunfo, para liderar uma equipa de quase 100 pessoas.

– Estarei à altura, chefe. – Responderia o Fernando, enquanto atiraria uma tarte à sua própria cara.

– A sua capacidade de aguentar a pressão também foi uma qualidade determinante.

– Compreendo, chefe. – Diria o Fernando, enquanto cairia propositadamente da cadeira.

Se o Carnaval fosse duas horas por mês, um professor poderia dar uma aula mascarado.

– Hoje vamos falar sobre alguns princípios de macroeconomia. – Diria o professor, vestido de urso.

– Professor, quer almoçar connosco na cantina? É salmão. Assim escusa de ir apanhá-los a subir o rio. – Diria uma aluna.

– Vamos também abordar alguns princípios de finanças públicas. – Diria o professor.

– Não era melhor a aula ser no exterior? Se o professor precisar de coçar as costas, pode roçar-se numa árvore. – Sugeriria a mesma aluna.

Se o Carnaval fosse dividido, alguém poderia ir mascarado depositar dinheiro ao banco.

– Gostaria de levantar todo o dinheiro da minha conta. – Diria o cliente, mascarado de assaltante.

– Só o da sua conta? – Perguntaria a funcionária do banco, assustada.

– Sim, sim. Estou a gozar as minhas duas horas de Carnaval.

– Peço desculpa, mas assim que entrou e tirou a senha, chamei a polícia.

– Não acha que, se fosse um assalto, eu não tiraria senha?

– Sei lá, ainda há pessoas civilizadas! – Responderia a funcionária, irritada.

– Que barraca! Agora vou ter que responder a perguntas.

Nisto, entraria um polícia.

– Vai ter que me acompanhar à esquadra.

– Mas estas são as minhas duas horas de Carnaval.

– Também as minhas, estava a brincar consigo. – Responderia o polícia.

– Ei, que alívio. Pensei que me tinha metido em chatices.

– Estava a brincar. Sou mesmo polícia. Pode acompanhar-me?

Se o Carnaval fosse dividido, alguém poderia ir mascarado à farmácia.

– Tem alguma coisa para a prisão de ventre? Estou tão entupido que já nem consigo voar. – Diria um homem vestido de Super-Homem.

Se o Carnaval fosse duas horas por mês, um tipo poderia ir ao hospital mascarado de zombie. Soaria um alarme, a cidade seria evacuada e isolada em menos de uma hora. O homem acabaria por ficar sem saber o que fazer.

– Será que há greve?

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O futuro é feio

O Governo chinês está a desenvolver um “sistema de crédito social”, que consiste num método de classificar os cidadãos, num ranking, consoante os dados que eles fornecem a empresas tecnológicas ligadas ao consumo e, com isso, garantir-lhes ou vedar-lhes o acesso a determinados bens ou serviços. Parece um episódio do “Black Mirror”.

A disputa entre Rui Rio e Santana Lopes pela liderança do PSD ficou marcada muito mais pelas questões pessoais, tais como descobrir quem foi mais fiel ao partido e quem falou menos vezes com o Pacheco Pereira, nos últimos quinze anos, do que pelas políticas que cada um tinha para o país.

Tenho uma amiga que diz que o vizinho do 5.º esquerdo faz voluntariado e é muito educado e prestável (no fundo, uma jóia de pessoa), mas não gosta dele porque ele, uma vez, chegou bêbado a casa, às cinco da manhã, e cantou o hino nacional, sem erros, na escada do prédio, enquanto urinava num vaso.

O primeiro e o segundo exemplos preocupam-me um pouco, mas o terceiro deixa-me aterrado. Quem nunca cantou o hino bêbado? Assim se cria má vizinhança, sem necessidade nenhuma.

Todos estes exemplos demonstram como a sociedade das redes sociais e dos “reality shows” está a tornar as questões pessoais o centro de tudo. Qualquer dia, a sociedade vai empolgar-se com as eleições, que serão decididas, palmo a palmo, entre multas de estacionamento e número de palavrões ditos, nos últimos quatro anos.

Não demorará muito tempo até que uma selecção de um candidato a um posto de trabalho se faça da seguinte forma.

- Chefe, temos aqui este candidato. Doutorado em Engenharia Espacial.

- Eh pá, sim senhor.

- Dados retirados da sua pulseira de actividade desportiva indicam que se deita sempre muito tarde e que tem uma vida sexual muito activa.

- Eh pá, o gajo é um javardo. Deve ser daqueles que vêm trabalhar cheios de sono.

- Tem mais dois doutoramentos: um em Física Quântica e outro em Química.

- Eh pá, notável.

- Mas tem perfil no Tinder e já pagou uma vez por sexo, na despedida de solteiro de um amigo.

- Eh pá, o gajo é um libertino. Vai meter-se com as miúdas todas aqui na empresa. Isso dá mau ambiente.

- Foi uma vez ao espaço. Foi medalhado em natação, nos últimos Jogos Olímpicos.

- Eh pá, sim senhor, um homem de acção.

- Teve seis multas de estacionamento nos últimos dez anos.

- Ui, o homem qualquer dia fica sem carta. Não queremos isso, depois chega sempre tarde ao trabalho.

- Tem oito patentes registadas, na área da robótica.

- Eh pá, um inventor!

- Gosta da saga “Velocidade Furiosa”.

- Ui, isso é azeiteiro. Depois vai pôr aqui a música alta.

- Deu aulas no M. I. T., durante dois anos.

- Eh pá, um professor.

- Nas últimas presidenciais, votou num candidato de esquerda.

- Eh pá, um revolucionário, ainda nos faz aqui uma greve.

- Faz voluntariado.

- Eh pá, um homem que percebe o seu papel na sociedade.

- Uma vez, chegou a casa bêbado e cantou o hino nas escadas do prédio, enquanto urinava num vaso.

- De facto, este gajo é muito qualificado. Mas a conduta deixa a desejar. Não tens mais ninguém?

- Tenho esta candidata, doutorada em…

- O que pensa ela dos direitos das mulheres?

- Uma vez, publicou nas redes sociais que o sexismo era um dos entraves ao desenvolvimento da sociedade.

- Esquece, é feminista. Vai engravidar mal a contratemos.

- Mas tem seis doutoramentos e os seus métodos ajudaram a recuperar uma empresa que estava perto da falência. Devíamos considerar…

- Esquece. Tens mais alguém?

- Tenho este gajo. Licenciatura em Engenharia Informática por concluir, só trabalhou seis meses, nos últimos cinco anos, porque rejeitou todas as propostas de trabalho. Mas diz a pulseira dele que nunca se deitou depois das 23h.

- Liga-lhe.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Vinte e cinco anos a escrever SMS's

No passado dia 3 de Dezembro, fez 25 anos que foi enviada a primeira SMS. Na altura, o engenheiro britânico Neil Papworth enviou, através de um computador (os telemóveis não tinham teclados com letras), a mensagem “Merry Christmas” (“Feliz Natal”) para o telemóvel de um funcionário da empresa que estava a testar o sistema.

Se pudesse, este funcionário teria respondido o mesmo. Ou, então, “Hoje vamos ver a bola em casa do Peter” (fim de mensagem), “Aparece” (fim de mensagem), “Traz cerveja” (fim de mensagem), “Afinal não é preciso cerveja” (fim de mensagem), “No fim, jogamos um póquer” (fim de mensagem), “Afinal não vamos jogar póquer” (fim de mensagem), “O Louis tem que ir para casa cedo, senão a mulher dele tripa” (fim de mensagem), “Já sabes como é” (fim de mensagem), “Golo do Chelsea” (fim de mensagem), “Então, não vens?” (fim de mensagem).

Terão sido as pinturas rupestres as primeiras SMS? Será que, alguma vez, um ser humano  terá escrito, na parede de uma gruta “Encontrei mamutes no vale” (fim de mensagem)? Será que outro ser humano terá respondido “Não te aproximes, um deles atacou-me” (fim de mensagem), “Ia-me dando uma valente bordoada”, “LOL” (fim de mensagem)?

Quando surgiram, as mensagens escritas eram uma espécie de tecnologia futurista vinda de outro planeta. Com aqueles telemóveis do tamanho de um sapato, podíamos escrevinhar uns textos curtos e enviá-los a outra pessoa. Pagava-se para se fazer isto. O que representa alguma justiça: quando os seres humanos comunicavam por sinais de fumo, não havia lenha infinita para fazer fogueiras. Custava apanhá-la. Com esta necessidade de gerir a lenha, os sinais de fumo foram sendo usados com critério. 

O mesmo que existia nos primórdios das SMS: valia tudo para poupar caracteres. Era possível, naqueles tempos, receber uma mensagem a dizer “E s fsses p o crlh?” (fim de mensagem). Uma vez que eu era, e calculo que o meu leitor também, uma pessoa de bem, ficaria incrédulo com tal impropério, e responderia “Pk?” (fim de mensagem). Certamente que a resposta seria “Dscp, enganei-m no nr” (fim de mensagem).

Pumba, meia dúzia de cêntimos à vida, a mandar a pessoa errada para o “crlh”. Bons tempos.

Hoje, vale tudo. Temos tantos meios de conversação que nem sabemos qual usar. Dizemos coisas a mais. Não só, perdemos o poder de síntese, como, pior, não sabemos seleccionar a informação essencial. “Hoje não vou poder ir ao jogo.” (fim de mensagem), “Tenho dores no joelho” (fim de mensagem), “Já na semana passada me doeu” (fim de mensagem), “Mas também tenho umas cenas para tratar” (fim de mensagem), “Nada de especial” (fim de mensagem), “Acabei com a minha namorada” (fim de mensagem), “E o nosso planeta foi invadido por extra-terrestres” (fim de mensagem), “Está a dar na televisão” (fim de mensagem), “Vamos ser todos aniquilados” (fim de mensagem), “Calha bem, porque tinha que pagar agora o seguro do carro” (fim de mensagem), “LOL” (fim de mensagem).

Felizmente, os nossos pais e avós mantêm o poder de síntese à antiga: continuam a gerir os caracteres das SMS como se fossem diamantes. Não porque elas sejam caras, mas porque detestam comunicar desta forma e ter que escrevinhar nestes aparelhos. Às vezes, são demasiado telegráficos. “A que horas vens jan8” (fim de mensagem) ou “Tens bacalhau do almoço no mi37” (fim de mensagem) são mensagens que, infelizmente, foram enviadas antes de estarem escritas mas que, felizmente, aprendemos a descodificar com o tempo.

Mas o maior feito no mundo dos SMS é o dos bêbados: enviar uma mensagem escrita com excesso de álcool no sangue é mais difícil do que aprender Islandês, para não referir como pode ser perigoso. É incrível como, sempre que bebemos em demasia, alguém mexe nas definições do nosso telemóvel, às escondidas, e depois as letras que queremos introduzir não são aquelas que realmente introduzimos. Alguém devia investigar isso, porque só mexem no telemóvel quando bebemos.

E é curioso que, muitas vezes, um bêbado fica com uma enorme vontade de enviar duas ou três mensagens a uma pessoa (ou mais?), de cariz geralmente emocional-sexual, mensagem essa cuja autoria poderá ser, no dia seguinte, negada até à exaustão.

“Achas mesmo que eu te mandava isso? Alguém pegou no meu telemóvel e enviou uma SMS para um número da lista, à sorte. Eu nunca te diria uma coisa dessas” (fim de mensagem), “Mas já que estamos a falar, desejo-te um Feliz Natal” (fim de mensagem), “Isto se não nos virmos antes” (fim de mensagem), “Queres ir tomar um café?” (fim de mensagem).

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Problemas na sala de cinema

Este texto também se poderia chamar "Uma aventura no cinema". Até seria mais divertido, porque pressuporia uma aventura retratada em filme. Por exemplo: uns gajos mauzões têm carros bué rápidos e andam em corridas e aos tiros uns aos outros. Esperem, estão aqui a dizer-me que já existe um filme desses, com sete (!!!) sequelas, e que todos são um sucesso: cada um é igual ao anterior e as pessoas aguardam com grande expectativa por cada novo título. Bolas, cheguei tarde. Mas a existência de oito filmes dentro do mesmo universo de carros e tiros leva-me a questionar o que esperam os espectadores que aconteça de novo, de cada vez que sai um filme. Que os carros fiquem sem gasolina? Que suba o preço dos combustíveis?

"Uma aventura no cinema" pode significar um conjunto de peripécias vividas na própria sala de cinema. A primeira questão, assim que chegamos ao nosso lugar, tem a ver com espaço. Há um tipo de espectador que traz, para além de uma panóplia de casacos, bolsas e edredons, acessórios que vão da mesa de campismo, para refeições, ao guarda-sol, para filmes com muita luminosidade. Precisam de um lugar para se sentar e de seis para arrumos.

Outra das questões que implicam algum jogo político tem a ver com os braços e as pernas. Passo a explicar. Os bancos do cinema têm apoio de braços. Ora, das primeiras relações de força que se estabelecem numa sala de cinema é a luta pelo apoio de braço. É possível, com recurso à diplomacia, que duas pessoas pousem os braços no mesmo apoio, em momentos diferentes, mas, caso calhe ao nosso lado uma pessoa mais intransigente, podemos perder a batalha. No cruzar de pernas, também há alguma adaptação, que implica gerir aquele cantinho que nos calhou, em colaboração com um desconhecido. Cruzamos uma perna ou outra, consoante o espaço que fica livre.  Tem a sua arte e dali podem sair grandes líderes do nosso tempo. Ou então, apenas pessoas que sabem comportar-se em público.

Assim que começam os trailers de outros filmes, surgem os primeiros comentários que dizem “Este deve ser fixe, temos que vir ver”. O que me leva a pensar se terá existido, na história do cinema, algum filme que, no trailer, pareça mau. Uma vez que o trailer consiste numa selecção cuidada de algumas das partes mais interessantes de um filme, posso concluir que o grande problema dos maus filmes poderá estar no resto do filme, todo ele verdadeiramente desinteressante.

Pelo filme adentro, começam os comentários na sala. Uns, mais especializados, de pessoas que consideram pertinente comentar com o espectador do lado a fotografia, os cenários, os efeitos especiais ou a banda sonora. Outros, não menos especializados, porém mais acessíveis ao grande público, afloram temas como a intensidade de uma cena de sexo ou as mamas de determinada actriz.

Há, no meio disto tudo, o espectador mais distraído que entrou na sala errada e que, aos quinze minutos de filme, pergunta se demora muito a aparecer o Batman.

Nos casos em que a história do filme é mais complexa, há espectadores que se perdem pelo caminho. Entre estes, há os que têm vergonha de perguntar o que raio está a acontecer e os que, de forma até bem audível, desatam a procurar, de todas as maneiras, até ligando para um amigo, em plena sala, uma explicação para os acontecimentos do filme.

A pensar nestes casos, proponho a criação da função de explicador do filme, que seria um funcionário do cinema que, a qualquer momento, poderia retirar o espectador da sala, explicar-lhe o que está a acontecer, repreendê-lo, caso a dúvida do espectador revelasse desatenção durante o filme, e recolocá-lo no seu lugar, contando-lhe o que aconteceu entretanto.

Mas o maior problema não é nenhum destes anteriormente referidos. É o caso das pessoas que mastigam pipocas de boca aberta. Aliás, isto é extensível ao mundo: o problema está nas pessoas que mastigam de boca aberta, em qualquer situação da vida. Já estive numa sessão de cinema em que um espectador fazia tanto barulho a mastigar que até uma personagem do filme se virou para a plateia e perguntou se era possível fazerem menos barulho, que estávamos numa cena com grande dramaticidade.

Por causa dos comentários estúpidos, das pessoas que fazem perguntas, das pessoas que mastigam de boca aberta e das pessoas com demasiados odores corporais (ou com excesso de perfume), proponho também que se reserve uma fila de lugares que terá o nome de “Fila do Entulho”. A qualquer momento, poderíamos solicitar a paragem do filme, chamar um provedor do espectador, explicar por que os nossos “vizinhos” nos estavam a incomodar, e pedir que estes fossem deslocados para uma fila de pessoas que se poderiam incomodar mutuamente, sem interferirem na experiência de cinema dos demais.

Era isso ou esperar que o Batman aparecesse e as levasse dali para fora.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

E se pudesses mudar a história do filme?

“Mosaic” é o nome de uma série de Steven Soderbergh, na qual os espectadores poderão escolher, através de uma aplicação, como se desenrola a história. São sete horas e meia de ficção, distribuídas por blocos que se sucedem consoante as escolhas de cada espectador.

Podia dar para alterar o telejornal. Quando aparecesse mais uma notícia sobre uma tragédia ou sobre uma imbecilidade ou ilegalidade de um político, podíamos escolher substituir a notícia por um passarinho a cantar. Ou por um gatinho a brincar com um novelo de lã. Ou por uma moça voluptuosa a saltar à corda. Ou pelo Jorge Jesus a dizer poemas de Herberto Hélder. Há certos momentos dos nossos noticiários em que até vídeos do A.G.I.R. marchavam.

Como em muitas outras situações, estamos perante um resultado surpreendente de uma pergunta começada por “E se”. Um pouco como quando as pessoas perguntam “E se eu bebesse mais um whisky, apesar de já ter ingerido seis?”, “E se eu saltasse daqui, mesmo sabendo que não sou o Homem-Aranha?” ou “E se provocasse este indivíduo que, apesar de parecer inofensivo, pode ser mestre de alguma arte marcial?”.

No caso desta série, alguém terá perguntado “E se puséssemos o espectador a construir a sua narrativa?”. É impossível pensar neste conceito sem pensar no potencial que poderia ter para mudar alguns filmes da nossa vida. Porém, tendo em conta que as pessoas são capazes de votar no Trump ou na Marine Le Pen, não dou por garantido que este potencial fosse bom para o cinema. Mesmo assim, arrisco avançar com algumas hipóteses de mudanças em filmes.

O Rei Leão
Naquela parte dramática, em que o Simba foge da manada de gnus em movimento, momento esse que culminará com a morte do seu pai, muitos espectadores optariam por colocar o Vin Diesel a salvar o Simba, ao volante de um daqueles carros muito azeiteiros, saídos do “Velocidade Furiosa 36”. Talvez um Simba que não perdesse o pai e fosse obrigado a fugir, ainda tão jovem, pudesse vir a tornar-se um monarca mimado e inútil, como muitos que a monarquia nos deu. Um Simba que só não seria viciado em álcool porque não há álcool na savana.

Armaggedon
Quando o Bruce Willis estivesse a despedir-se da filha, naquele momento de grande intensidade dramática, mesmo antes de salvar o Mundo, apareceria o Super-Homem, depois de levar uma tareia de toda a gente, que é o que ele faz nos filmes, para rebentar o asteróide e conseguir um emprego na NASA.

Exterminador
Neste caso, tudo seria igual, mas muitos espectadores colocariam câmara frontal e traseira ao Exterminador, para que ele pudesse ter uma conta no Instagram. Teríamos boas fotografias de armas e tiroteios, bem como um “instastory” de um carro a explodir.

Mad Max
Em vez de um Mad Max que se tinha tornado violento por lhe terem matado a família, muitos espectadores prefeririam um protagonista que matasse todos aqueles vilões só porque eles tinham feito barulho na rua, às quatro da manhã.

Titanic
Em vez do final trágico que todos conhecemos, teríamos duas tendências. Os espectadores que preferissem novelas escolheriam uma viagem tranquila do navio, com uma história de amor impossível, outra de amor possível estragado por algum evento, uma personagem que só diria coisas estúpidas, um vilão que acabaria morto e um mistério que só se resolveria no fim do filme. Os espectadores adeptos do cinema de acção colocariam o Titanic como alvo de um ataque de piratas. Felizmente, o Steven Seagal seria cozinheiro do navio e neutralizaria todos os piratas, sem sofrer um arranhão.

Gritos
O mais frágil e desajeitado assassino da história do cinema seria eliminado logo na primeira cena, por qualquer velhinha com um guarda-chuva.

Qualquer filme de terror
Nunca mais uma personagem tomaria decisões imbecis, tais como suspeitar que está um invasor em casa e, mesmo assim, ir à garagem apenas com uma lanterninha, ou suspeitar que existe um monstro na floresta mas, mesmo assim, pesquisar qual a origem de um ruído atrás daqueles arbustos. Nunca mais um susto seria provocado por um gato. É que, quase sempre, as personagens que vão ser atacadas ouvem um barulho, vão verificar qual a origem, percebem que era só um gato e, mal se viram, são atacadas. Se não houvesse o gato a fazer barulho, elas nem tinham ido ali. Os monstros ou assassinos perderiam o seu público-alvo, composto maioritariamente por personagens estúpidas, e teriam que dedicar-se ao paintball.

Pensando bem, é melhor haver alguém que decida pelo público.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Quanto tempo passamos à espera?

Se me aparecesse um génio da lâmpada que estivesse impossibilitado de realizar desejos, por falta de Internet móvel, ou por estar de ressaca, mas que pudesse, por ser um génio, responder a uma grande questão, perguntar-lhe-ia algo como “Uma vez que não costumo encontrar lâmpadas com génios, nem frequento fábulas com regularidade, que raio faço eu na presença de um génio da lâmpada?”. Desperdiçada de forma tão estúpida esta oportunidade de fazer uma pergunta relevante, tentaria convencer o génio a dar-me uma segunda oportunidade da seguinte forma:

- Se não me responderes a uma nova pergunta, guardo esta lâmpada num lugar em que só toquem músicas do Enrique Iglesias.

Como é óbvio, o génio saberia que ouvir temas eruditos como “Subeme la radio”, para todo o sempre (os génios vivem nas lâmpadas para todo o sempre), seria um castigo, pelo que, conceder-me-ia uma segunda pergunta.

Eu aproveitaria para perguntar, não qual o sentido da vida, não se existe vida para além da morte, não se existe vida inteligente noutro planeta, mas quanto tempo da nossa vida nós passamos a esperar. E não falo da espera “à Gustavo Santos”, do tipo “Quando serei feliz?”, “Quando vou aprender a valorizar-me?” ou “Quando conseguirei chegar à fala com aquela moça extremamente interessante que conheci no aniversário de um amigo, mas que, por ser muito para lá do meu campeonato, quase nem reparou em mim?”. Falo de esperar mesmo: na sala de espera do médico, no aeroporto, numa repartição pública ou numa loja.

“Mas isso é uma pergunta estúpida”, dirás tu, meu leitorzinho tão inteligentezinho e chatinho. Eu sei, mas se leres com atenção o texto desde o início, em nenhum momento eu prometo inteligência e subtileza na pergunta a colocar ao génio. Para isso, já temos os jornalistas do “Correio da Manhã”. Eu faria aquela pergunta para ter uma ideia de quanto tempo vou desperdiçar à espera que algo aconteça.

Tendo essa informação, posso desenvolver um grande projecto de ocupação de tempo de espera. Vou criar uma empresa só disso. Imagina que tens que levar o carro à inspecção e vais estar meia hora à espera. É só dizeres o que queres e eu providencio-te entretenimento à séria: uma mulher com voz bonita a cantar temas da novela da noite; um malabarista a fazer um truque com espadas, enquanto cospe fogo e recita Shakespeare; uma luta de UFC entre duas pessoas vestidas de urso; dois mariachis a cantar “La Cucaracha” em Norueguês; enfim, qualquer coisa divertida e exequível.

Digo "exequível" porque, se me pedisses um membro de uma juventude partidária a elaborar sobre temas da actualidade, seria impossível atender ao teu pedido, porque estas pessoas pouco mais conseguem do que gritar palavras de ordem e agitar bandeiras.

Na sala de espera do médico, talvez precisasses de um divertimento mais comedido. Ali, toda a gente faz uma espécie de exame de consciência e questiona-se se tem bebido muita água, se tem comido muita fruta, se tem feito exercício físico ou se a alface do Big Mac conta como salada. Neste caso, parece-me adequado um violinista, só para estares ali, a pensar na vida, enquanto um saco de gomas te espera em algum lado. 

Também será útil para embalar aquele senhor que adormece em todo o lado, de forma a poupar bateria. Que dorme com a cabeça tombada e ao lado daquela criança que está a saltar em cima de uma cadeira, enquanto balbucia sons estridentes que, somados, significarão qualquer coisa como “Dadas as circunstâncias, acho que vou fazer um cocó na fralda, porque não há perspectivas de, nos próximos dez minutos, sairmos da beira destas pessoas que não conheço de lado nenhum”. 

As pessoas que adormecem em todo o lado começam, por desgaste do hardware, a passar do “standby” para o modo avião com regularidade. É um problema técnico que causa alguns transtornos, nomeadamente, em salas de espera, quando o nome delas é chamado no altifalante e elas não saem do sono.

Para aqueles que se queixam de que a consulta está atrasada, talvez um grupo de bombos, para ajudar a dissolver a ira e, em caso de espera por consulta no dentista, talvez um orador motivacional, que faça as pessoas esquecerem os sons característicos de uma sala de tortura que vêm do lado de lá da porta, perante o sorriso sarcástico de quem está na recepção.

Numa repartição pública, podíamos ter um humorista a fazer piadas sobre impressos. Assim, quando o funcionário nos pedisse um papel qualquer, timbrado, carimbado e lambido por uma vaca dos Alpes, não o faria com um ar de ditador, mas com um ar de quem pede algo para a diarreia numa farmácia cheia de gente.

Acho que este negócio tem tudo para prosperar. Só me falta encontrar a lâmpada com um génio e um investidor.

Estou à espera, enquanto alguém canta um tema dos Abba.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Descobertas de quem adoptou uma gata

Toda a vida tive cães em casa. Há cerca de um mês, adoptei uma gata ainda bebé que vivia na rua. Uma vez que sobrevivi à experiência, não tendo a pequena felina me cravado os dentes na jugular, ou porque não quis, ou porque ainda não arranjou forma, resolvi fazer um balanço da experiência.

Dizer que cães e gatos são diferentes é tão inútil como dizer que um boi é diferente de um camelo. Embora, no Norte, “boi” e “camelo” sejam nomes usados para apelidar, com precisão, um tipo específico de indivíduos que nos surgem no caminho, ao longo da vida.

Não serve, portanto, este texto para entrar na estúpida discussão sobre se são os cães melhores do que os gatos, ou vice-versa, porque isso é tão estúpido como discutir se é mais divertido tocar à campainha e fugir ou arremessar balões de água do quarto andar.

No capítulo da higiene, os gatos são a prova de que a reencarnação existe. Pousamos o gato na caixa de areia e ele sabe, porque aprendeu noutra vida, para que serve a areia e como apagar vestígios do que lá faz. É mais rápido um gato a aprender a fazer as necessidades na areia do que alguns seres humanos a aprender, não só, para que serve um piaçaba, como qual a forma de dizer e escrever “piaçaba”.

No meio disto tudo, há uma prova de que os gatos são deste planeta: quando soltam gases intestinais, quase se torna necessário evacuar o edifício. É pior do que inalar vapores de uma infusão de enxofre e urânio enriquecido.

Com um gato, temos que estudar, não só, o mundo dos felinos, como também Física Quântica. “O meu gato cabe ali dentro?”, “Passa naquela frincha?”, “A minha casa tinha aquele sítio onde ele está escondido?”, “Será que ele chega ali?” ou “Será que, durante as últimas seis horas, ele esteve num universo paralelo, a dizer poemas em Latim a um conjunto de iguanas gigantes” são algumas das questões essenciais de quem tem um gato há pouco tempo. Geralmente, a resposta é sim: o gato cabe ali, passa ali, salta assim tão alto e disse poemas em Latim, num universo paralelo, enquanto caminhava por cima de um cordão de uma sapatilha, atrás de um ratinho de brincar.

Diz-se que uma preguiça dorme cerca de 80% da sua vida. O que não se diz é que um gato dorme mais do que 80% das preguiças. Mas, enquanto dorme, monitoriza, não só, os nossos movimentos, como o daquela mosca que está a voar junto à janela, da aranha que faz uma teia junto à porta, do átomo de hidrogénio que passou junto a uma orelha, ao mesmo tempo que analisa a evolução nos mercados de dívida pública e questões importantes que estejam a ser faladas no noticiário, como a independência da Catalunha ou a reunião do Eurogrupo. Claro, que, no meio disto, ele mantém as prioridades: isto da Catalunha é importante, mas se aquela mosca passar perto dele vai ter que ser capturada e ingerida. Tudo, sem abrir muito os olhos: convém recordar que o gato está a dormir.

Sempre que entro em casa, a minha gata vem ter comigo, o que é um comportamento muito semelhante ao de todos os cães que tive. Só que, enquanto que os cães revelavam graus de felicidade pela minha chegada que os levava a destruir parte da casa, embalados pela euforia, a gata circula à minha volta, revelando só a felicidade necessária para me saudar. Se fossem pessoas, os gatos eram do jet-set: sorririam só o necessário para a fotografia, dançariam só o necessário para a fotografia, acenariam só o necessário para a fotografia. Com uma diferença: os gatos gostam de um caixotinho de areia, o pessoal do jet-set gosta de um saquinho de pó.

Fazer festas a um gato é como jogar aquele jogo da operação: se tocares numa zona proibida, perdes. Perder, no operação, era acender uma lâmpada e soar um barulho estridente. Perder, a fazer festas a um gato, é o gato querer matar-te, começando pelas mãos. O dono de um cão costuma ter baba nas mãos, o dono de um gato tem mãos de quem trabalha diariamente com arame farpado.

O cão olha-te como quem diz "Já te disse hoje que gosto de ti?", o gato olha-te como se lhe devesses 100 euros. Quando chamas um cão, ele vem porque sente que tem o dever de vir. Quando chamas um gato, ele vem se considerar que estão reunidas todas as condições de segurança e de conforto, bem como se existe disposição emocional, humidade relativa do ar e proximidade da Terra em relação a Júpiter para vir.

Às vezes, os gatos recebem mensagens do além e perseguem entidades que só eles vêem, em corridas quase à velocidade da luz. É curioso que, no meio dessas corridas, a minha gata nunca passou por cima do teclado do compdfhuioshcvxjki ndvsojcdnvwe0scvkdn kcvm <cnsdijvnw231i9rh310fh98utador.

Correcção: numa dessas corridas, a gata foi responsável por um excerto deste texto. Que, num universo paralelo, para onde ela vai, seis horas por dia, quererá dizer qualquer coisa.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Roupa falante

Esqueçam a regeneração de tecidos, esqueçam os antídotos contra bactérias e vírus, esqueçam a exploração espacial. Os seres humanos que andavam a vaguear pelas suas vidas fora, à procura de respostas para as perguntas “O que andamos nós aqui a fazer?” e “Como perder barriga em 36 horas?” encontraram a primeira delas: andamos aqui a fazer casacos que atendem o telefone e permitem pôr música a tocar no telemóvel. Eu diria que isto é lindo, mas como tenho preguiça em dose diária recomendada, digo que é bastante cómodo.

A Levi’s e a Google fizeram uma parceria e criaram um casaco que permite, com um simples toque na manga, atender chamadas, passar música ou obter direcções. Eu sei, eu sei, a primeira pergunta que se impõe é: a garantia protege aquele pessoal que não perde o bonito hábito de limpar moncos com a manga do casaco? Eu quero acreditar que o dispositivo que está na manga é “moncos proof” até quinze dias de exposição (toda a gente sabe que ao 16.º dia, os moncos ficam meios radioactivos).

Ficamos suficientemente preguiçosos para não tirarmos o telemóvel do bolso, o que nem é mau: dessa forma, evitamos lesões, entre outros, no bicípite ou no tricípite, no braquial ou no braquiorradial, no extensor radial curto do carpo ou no flexor radial do carpo, no flexor longo do polegar ou no abdutor longo do polegar. Toda a gente percebe a importância disto. Imagina que um indivíduo pousa o casaco nas costas de uma cadeira, no café, e atende uma chamada através do casaco.

- Aquele senhor está a falar para o casaco ou para a cadeira? – Pergunta uma velhinha adorável, enquanto toma o seu galão.

- Não percebes nada: está a atender o telemóvel através do casaco, evitando, dessa forma, lesões, entre outros, no bicípite ou no tricípite, no braquial ou no braquiorradial, no extensor radial curto do carpo ou no flexor radial do carpo, no flexor longo do polegar ou no abdutor longo do polegar. – Responderá uma velhinha não menos adorável e que fala como se estivesse num anúncio de televendas.

Será que um casaco destes pode, no autocarro, por exemplo, e depois do contacto com um casaco igual de uma pessoa com gostos mais duvidosos, apanhar um vírus que apenas nos permite pôr a tocar músicas dos D. A. M. A. ou do Diogo Piçarra? Teremos, um dia, que comprar anti-vírus para o casaco?

Tendo em conta o avanço da inteligência artificial, é provável que os nossos casacos queiram, um dia, tomar conta das nossas vidas. Para isso, criarão situações desconfortáveis com uma música errada, à hora errada. Cruzas-te no elevador com um vizinho cujos sons da vida sexual são demasiado estridentes para serem contidos por uma parede. O teu casado apercebe-se disso e põe , por exemplo, o Tom Jones a cantar o “Sex Bomb”. Ficará no ar aquela ideia de “Eu sei o que tu…” e uma viagem de três andares vai passar tão rápido como uma manhã numa repartição pública.

Vais jantar a casa dos teus sogros e, na hora da ir embora, mostras a tua gentileza e despedes-te da tua sogra com dois beijos. O teu casaco apercebe-se e, nesse momento, começa a ouvir-se o Marco Paulo a dizer “Quando você vem com essa cara/De menina levada para a brincadeira/Dá-me um arrepio na pele/Sinto água na boca p’ra ficar com você”. Ficarás dois anos sem conseguir enfrentar os teus sogros.

O que pode nem ser assim tão mau.

Vais de férias e passas pelo gabinete do teu chefe para te despedires. Antes que digas o que quer que seja, o teu casaco põe o Demis Roussos a cantar “Goodbye my love, goodbye/Goodbye and au revoir/As long as you remember me/ I’ll never be too far”. Decides trabalhar mais um dia, só para apagar aquele momento.

Tens amigos a jantar em tua casa. Eles até são fixes, mas podiam ir embora, que tu queres ir dormir. O teu casaco, pensando estar a ser teu amigo, dá asas ao Clemente, na música em que ele diz “Vais partir naquela estrada/Onde um dia chegaste a sorrir”. Para minorar estragos, dizes aquelas coisas que toda a gente diz, tais como “Fiquem à vontade, até abro mais uma garrafa, se for preciso!” mas, por dentro, agradeces, pela primeira vez, ao teu casaco, enquanto os teus amigos se preparam para ir embora.

O passo seguinte nesta caminhada de progresso será a camisa que te apresenta como se fosses um produto. Um casal conhece-se e, em vez de falar, que é o que nós, humanos primitivos, fazemos, usam as suas camisas de apresentação.

“Olá, esta é a Susana. É introvertida, mas gosta de regabofe selvagem. Não é ciumenta, mas uma vez assumido um compromisso com ela, desejará que todas as mulheres do planeta desapareçam. Tenciona casar e considera que começam a ser horas, pelo que, caso te adeques minimamente, terás que avançar destemido para a etapa seguinte.”

“Olá, este é o Fernando. Pratica crossfit e come farelos diversos que fazem dele um modelo de elegância e de regularidade no trânsito intestinal. Domina bricolagens diversas, tanto em casa como na mecânica automóvel, e ganhou, em 1997, um concurso internacional de karaoke, a interpretar um tema do Enrique Iglesias.”

Mal podemos esperar por estes tempos! (Esta última frase foi escrita pela minha t-shirt.)